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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Correr e Sobreviver

Faltavam poucos dias para o réveillon, ainda tentava evitar que a Jéssica chegasse ao fundo do poço. Corria atrás de provas irrefutáveis para mostrar e convencer o pai dela. Acabei entrando em uma roubada ao atender o pedido da amiga e acompanhá-la até a avenida Paulista na festa da virada. Todos das nossas relações evitavam a Jéssica depois do seu envolvimento com o marginal. A garota aproveitou a ausência do pai que estava de plantão naquela noite e convenceu a mãe a deixá-la ir comigo. Eu só aceitei entrar com minha participação quando soube que seu namorado também estaria lá. Era uma oportunidade de registrar alguma coisa útil em um lugar seguro. Eu não a acompanhava mais nas baladinhas que aconteciam no bairro do cara, o lugar era muito perigoso para mim que não era da turminha deles.

O cara ficou incomodado com a minha presença e não perdeu a oportunidade de hostilizar-me. Eu não estaria lá se não estivesse em uma missão, nunca gostei da sua companhia e gostei menos ainda quando ele foi acusado de ter ter roubado o celular de uma moça. A coisa piorou quando a Jéssica e eu fomos apontadas como cúmplices. Começou uma discussão com um grupinho de amigos da moça e complicou de vez; uma outra vítima também se manifestou gritando que seu celular havia sido furtado do seu bolso. O negócio ficou punk e ia dar merda. Nos esgueiramos entre os demais na multidão e fugimos do local. Seguimos correndo por um trecho da avenida Paulista até avistarmos alguns policiais, diminuímos o ritmo para não sermos alvo da atenção deles. Eu e a Jéssica calçamos novamente nossos sapatos que estavam em nossas mãos, havíamos tirado, pois apesar dos saltos não serem altos, não era possível correr com eles. Continuamos com uma passada rápida.

Respiramos aliviados ao chegarmos nas proximidades do Metrô paraíso, no entanto era cedo demais para comemoração, o drama recomeçara ao ouvirmos os gritos de uns caras se aproximando rápido, era o mesmo grupinho e continuavam nos perseguindo.
Entramos na estação na tentativa de pegarmos um trem antes de sermos alcançados. A espera pela composição naquela plataforma foi angustiante, cada segundo parecia uma eternidade.
O alvoroço de gente gritando e correndo em direção à plataforma deixou-nos em pânico, estávamos encurralados. Os gritos foram abafados pelo barulho do trem que se aproximava. Segurei a mão da amiga e juntas fizemos uma espécie de oração:
— Vem trem, vem logo, por favor. Corre moço, pelo amor de Deus!
O trem parou e fomos vistos no momento em que entrávamos no vagão. A gritaria de “PEGA, PEGA, SEGUREM ELES” foi generalizada. O marginal dizia para ficarmos na moral e fingirmos que não era conosco. Entramos e permanecemos em pé rezando para que a porta fechasse rápido. O grupo se aproximava ensandecido correndo em direção à plataforma. Soou o apitinho característico de aviso, a porta finalmente fechou e o trem entrou em movimento. Ainda morremos de medo quando olhamos para as caras de ódio, mas também de frustração daqueles insanos, eles fizeram sinais agressivos em nossa direção e era fácil ler em seus lábios o monte de palavrões pronunciados. Nós três retribuímos mostrando o dedo mau para eles e rimos aliviados.
Depois do susto eu falei que ia pra casa, ainda mais depois que ele confessou que pegou mesmo o celular da mina, “ela tava dando mole com um bagulho da hora”, palavras dele. Para piorar ele mostrou mais dois que havia roubado. Minha felicidade em ter conseguido escapar de um provável linchamento passou logo, fiquei muito puta, o cara além de um drogado também era um ladrãozinho ralé. Não poderia externar o ódio que sentia por dentro, precisava manter o foco até conseguir provas contra aquele viciado ladrão.

Nós descemos na estação Tamanduateí perto da meia noite. Assistimos parcialmente a algumas queimas de fogos de dentro do micro-ônibus a caminho do buraco onde morava o marginal. A Jéssica havia ficado em meu ouvido o tempo todo implorando para não deixá-la sozinha. Eu não poderia chegar em sua casa antes dela, saímos de lá juntas e já estava combinado que eu dormiria lá, pois minha mãe foi para o litoral e só me deixou ficar a pedido da mãe da amiga e a promessa de dormir em sua casa.
A garota pretendia continuar a festa de Réveillon com o cara e na vila dele em Santo André. Ele disse que poderíamos ir a uma festinha na casa de uns “chegados” dele, alí aconteceria uma queima de fogos a 1h da manhã. Deus do céu, não era este Réveillon que eu havia desejado para este ano, contudo era a chance de conseguir umas imagens para o meu dossiê.


***

O lugar onde morava o Pulga (namorado da Jéssica) era um favela em um terreno que fora invadido. As casas eram construídas umas sobre as outras sem organização nenhuma e as ruas eram vielas sem infraestrutura. Descemos uma escada íngreme na lateral do terreno e ficamos algum tempo na casa de baixo. Aquilo mais parecia um porão e não havia outra saída, pois o final do terreno era uma ribanceira de mais de dez metros. A parede dos fundos e uma das paredes laterais eram encostadas no barranco. A do lado contrário a separava de outro imóvel tão simples quanto. Havia janelas e porta somente na frente.
Era no terreiro que rolava a festa ao som de um Rap marginal que tinha suas letras repetidas pelas vozes desafinadas das novinhas que gesticulavam em atitudes debochadas. Também eram repetidas por alguns caras do tipo bandidão mesmo.
Havia um ou outro que parecia ser do bem, aparentemente seriam vítimas e sobreviventes do meio em que nasceram.
A casa de cima só tinha dois cômodos, ali rolava outro tipo de festa em meio a muita libertinagem e sujeira. Era o lugar ideal para eu capturar imagens e mostrar ao pai da Jéssica o quanto a garota desceu. Mais algumas semanas enterrada neste submundo e a amiga estaria tão no fundo que não haveria mais a possibilidade de resgatá-la.
Espalhados por cima de uma mesa nojenta e bagunçada, havia garrafas de bebida, latinhas de cerveja vazias, resto de comida e algumas drogas. Deduzi pela quantidade que era apenas para consumo dos ali presentes e que acabara de ser consumida por dois caras e duas garotas que dormiam aos pares em uma cama e também em um colchão largado ao chão, ambos de solteiro. As roupas de cama pareciam panos de chão velhos de tão encardidas que estavam.
Acredito que os quatro apagaram de tão entorpecidos e sem praticarem qualquer ato sexual, já que não notei nenhum preservativo usado ou embalagem. As garotas apesar de estarem com a bunda de fora, já que os microvestidos não cobriam nada naquela posição, ainda estavam vestidas com suas calcinhas.

Mantive o meu celular na mão desde a nossa chegada, já com a intenção de tentar registrar tudo discretamente. Comecei a filmar mantendo meu braço abaixado e rente ao corpo. Captei as imagens da amiga sentada no colo do bandido enquanto ele alisava suas coxas com uma das mãos por dentro do seu vestido. Ele passou um baseado para ela com a outra mão, ela fumou o bagulho e ofereceu pra mim. Eu recusei e ela insistia sendo apoiada pelo carinha. Falei que não estava a fim e não estava legal depois de tanta agitação e bebidas. O bandidinho me chamou de fresca e levantou para pegar um pouco de farinha (segundo ele). Olhei para a Jéssica com uma expressão de súplica tipo implorando para sairmos fora dali. A sonsa sorria toda eufórica vendo o cara arrumar o bagulho sobre a mesa. Eu teria que fazer alguma coisa para tirar a garota daquela roubada, mas não de imediato, naquela noite eu já tinha meus problemas para resolver e o principal deles era sair inteira daquele lugar.

Fiquei em pânico quando o Pulga apontou para minha mão que segurava o celular e perguntou:
— O que é isso aí, mina? — Gelei de medo na hora.
Ele percebeu que eu estava filmando pensei. Tentei me fazer de boba colocando a mão para trás, desligando o celular e olhando para minha perna perguntando o que foi…Soltei um grito ao ver um um bicho em meu vestido, a princípio pensei ser uma barata enorme. Que nojo, eu falei após o grito histérico e sacudi minha roupa. O bicho voou, era uma mariposa. Ouvi um montão do cara e da amiga por ter feito tanto escândalo, depois ouvi ofensas ao recusar as insistentes ofensivas deles para que eu também cheirasse aquela droga. Tiveram o reforço de um outro cara, amigo do Pulga, era mais um noia para me atormentar. Só continuei recusando e dizendo que não estava legal. A garota já estava irreconhecível e inconveniente. Não respondi às suas provocações me chamando de careta entre outras coisas, visto que ela estava bêbada a princípio e drogada na sequência.
Fiquei em desvantagem, pois o carinha a defendia e incentivava, claro. Ele foi hostil comigo, me chamou de patricinha e disse que eu estava sobrando ali. Fiquei com medo, eu não poderia ir embora sozinha, não conseguiria andar duas quadras naquelas quebradas escuras sem ser abordada pelos tipos que vagavam por lá.
O Pulga em tom ameaçador mandou eu vazar dali dizendo já estar puto comigo. Pegou a amiga pela mão e disse que ia fazer um love com ela no quarto e não queria me ver quando voltasse. Antes de entrarem no quarto ele cochichou algo para o outro cara. Consegui captar a parte que ele mandou o moleque me levar pra fora dali.
Fiquei assustada, aquele lugar não era seguro, e não tinha como ir embora antes que amanhecesse.

O sujeitinho, amigo do Pulga, veio se insinuando e cambaleando para o meu lado, ele também já estava bem louco. Guardei meu celular na bolsa e tentei ir para a porta. Ele cheio de conversa cortou o meu caminho e foi me encurralando enquanto eu me afastava contornando a mesa e desviando do colchão que estava no chão. Eu não tinha mais para onde ir, era parede de um lado, mesa de outro e ele na minha frente. Encostei na mesa. O idiota tentou me beijar a força e eu recusei virando o rosto e pedindo inutilmente para ele parar. O cara ficou zangado e apertou meu pescoço com uma mão e de dedo em riste no meu rosto fazia ameaças falando que eu era uma putinha safada e era para parar “de fazer cu doce” ou o bicho ia pegar para o meu lado. Eu chorava de raiva e não de medo, eu não me deitaria com ele nunca. Nenhum noia iria me humilhar naquela noite.
Sua mão imunda puxou a alça do meu vestido e tentou colocar meu seio para fora; tanto foi a brutalidade que ouvi meu vestido rasgando. Eu relaxei e deixei que continuasse a descer o tecido até meu seio ficar exposto. Senti repulsa com o contato daquela mão nojenta em minha pele nua. Ele estava todo confiante e achando que eu ia colaborar. Falou:
— Ae, safada. Você é gostosa. Continua na manha! — Ele disse mais ou menos isso.
Ele aliviou a pressão no meu pescoço e foi com a boca direto no meu mamilo. Com as duas mãos eu acariciei seus ombros, continuei movendo as mãos por debaixo dos seus braços e fui com as palmas das minhas mãos em seu peito e o empurrei com toda a minha força. Ele tropeçou no colchão que estava por detrás dele e se estatelou de costas sobre o casal que estava deitado.
Eu corri porta afora. Tirei meus sapatos ou não conseguiria correr. Ouvi ele vociferar palavrões lá dentro e eu corri o mais que pude, no entanto eu não tinha para onde ir naquele lugar e naquela hora da noite. Calculei que ele não viria atrás de mim, o imbecil mal conseguia andar de tão chapado que estava.

Porém minha fuga foi inútil, fui surpreendida por três caras na segunda esquina. O mais velho deveria ter vinte anos no máximo, os outros dois eram menores de idade com certeza.
Eles me cercaram como lobos ao ver um filhote de ovelha desgarrada do rebanho. Senti-me tão indefesa e desiludida de tudo. Só pensava no pior e no que eles fariam comigo. E se o outro cara aparecesse naquele momento e fosse amigo deles, daí eu teria que rezar para sair dali com vida.
— E aí, novinha! Tá perdida aqui na área? — Falou um — Tá toda princesa, vem fazer uma festinha com a gente. — Um outro disse.
E foram muitas gracinhas ditas enquanto eu tentava sair do meio deles e pedia pelo amor de Deus para deixarem eu ir embora. Eles se divertiam com meu choro e o meu medo, mãos tocavam meu corpo em todos os lugares e um deles pegou minha bolsa, que era pequena e só cabia o celular, documento, uma ou outra maquiagem e algum dinheiro.
O celular foi a primeira coisa que ele pegou na bolsa, fiquei aterrorizada. A situação já era o caos, mas poderia piorar. Se eles vissem o conteúdo das filmagens com o Pulga e os outros em destaque, eu estaria fodida de vez. Ele ligou o celular, mas não conseguiria mais que isso, pois a tela é protegida por senha e eu nunca iria dizer a senha para eles. Os outros dois além de negociarem a divisão dos pertences em minha bolsa, também especulavam onde fariam uma “festinha” comigo.

Continua…



Beijos queridos amigos, até a próxima!

2 comentários:

  1. Nossa!!! Que tensão... Está muito bom! Tem de tudo um pouco... Adorei!!!

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  2. Hummmmmmm. Muito excitante seus contos

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