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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Nego Biu

Estava arrependida de ter bancado a detetive e ter entrado naquela roubada. Acho que rezar não adiantaria e até passou pela minha cabeça uma ideia maluca de dar preferência a um e incitar uma briga entre eles. Tentaria a fuga durante o tumulto. Porém nem tive a oportunidade de terminar o raciocínio, de repente um vulto surgiu na escuridão caminhando rápido em nossa direção. O recém chegado era um cara grande, muito grande e fortão; pense no Dwayne Johnson (o policial musculoso do filme Velozes e furiosos 6), tipo assim, só que com o charme brazuca.
Enfim, ele segurou em meu braço com uma mão e com a outra ele fez um gesto imitando uma arma com dois canos. Vociferou para os três moleques que me mantinham como refém:
— Aee! Larga a mina que ela é minha chegada!
Eles pareciam temer o cara, ou no mínimo tinham juízo, pois ficaram na miúda e disseram que estavam só zoando.
— Devolve o meu celular e minha bolsa! — falei para um deles.
Fiquei toda corajosa com meu ”guarda-costas” ao lado. Eu poderia estar entrando em uma enrascada ainda maior, mas naquele momento eu só queria livrar-me daqueles marginaizinhos e sair fora daquela favela. Não poderia deixar as imagens gravadas caírem nas mãos do pessoal daquele buraco.
Os carinhas devolveram as minhas coisas um tanto contrariados, deu para captar a raiva que estavam sentindo. Eu teria problemas se cruzasse com eles novamente sem a companhia do meu suposto protetor.
O trio do mal saiu para um lado e nós para o outro na escuridão, só então eu senti medo daquele trintão com cara de mau e da cor do chocolate. Começava a achar que havia pulado da frigideira para cair no fogo.
Ele parou próximo a uma das poucas luzes existentes naquelas vielas e me filmou de cima abaixo. Fiquei gelada quando aquele monstro de homem veio com sua mão em minha direção e parecia que tocaria o meu seio.
— Seu vestido rasgou — ele falou.
Foi gentil ao pegar a alça caída e tentou ajeitar a roupa rasgada em meu ombro. Sorri agradecida e disse que precisaria de uma costura. O gigante estendeu a mão me cumprimentando e disse que seu nome era Rogério, mas desde moleque todos o conheciam como Nego Biu. Ele preferia ser chamado pelo codinome, concluiu. Retribuí o cumprimento dizendo o meu nome e que também preferia ser chamada de Mila.
Aquele homem de aparência bruta não me parecia mais ser uma ameaça. Perguntou se eu estava na casa de alguém ali por perto, pois ele não me conhecia e sabia que eu não era da comunidade. Simplifiquei a história dizendo ter vindo com uma amiga e tivemos um desentendimento, fiquei cheia de raiva e resolvi ir embora sozinha.
Nego Biu disse que eu cometi um erro dando mole naquelas quebradas. Eu concordei. Sugeriu sairmos fora daquele pedaço, ele me acompanharia até a saída da vila.
Eu não teria como ir embora a esta hora, expliquei, não havia ônibus circulando e não conseguiria um táxi.


***


Mesmo a Jéssica não merecendo, não poderia ir embora sem saber como ela estava. Minutos mais tarde liguei para o seu celular… Não atendeu em nenhuma das minhas tentativas. Deixei uma mensagem: estaria esperando nas proximidades e que ela ligasse pra mim. Não falei do Biu e nem sobre estar indo para o posto de reciclagem (era onde ele morava). Aceitei o convite do grandalhão para ficar lá até o dia amanhecer.

Chegamos na casa dele. O lugar resumia-se a um cômodo grande dividido por uma cortina que separava o que seria sala e cozinha na entrada e um quarto do outro lado da cortina. O banheirinho era do lado de fora. Ele pegou uma garrafa de água em uma geladeira, que pelo estado, provavelmente veio do ferro velho e ele deu uma geral e estava sendo-lhe útil. Perguntou se eu queria.
Aceitei a água, agradeci e comentei:
— Estou precisando é de uma bebida forte, foram muitas emoções esta noite. — E soltei um suspiro de relaxamento.
Ele pegou um litro de vermute branco (Contine) em um pequeno armário de portas quebradas, disse que ganhou de um reciclador. O Biu levaria a bebida para a casa do seu cunhado no dia seguinte, lá aconteceria um almoço de Ano Novo. Recusei várias vezes, mas gentilmente ele insistiu para que eu me servisse, poderia ir sem a bebida para o tal almoço, não havia prometido levar nada.
Teria sido indelicada se não tivesse aceitado. Ele abriu a garrafa e nos serviu, brindamos à vida e a dias melhores.
Biu falou que ia dormir um pouco. Eu estava com a adrenalina a milhão, não queria e não conseguiria adormecer, aguardaria algum contato da Jéssica enquanto esperava o dia amanhecer. Desejei-lhe bom sono e disse que ficaria bem.
Acomodei-me em um sofá na entrada, com a garrafa quase cheia. Ele foi para perto de sua cama, eu podia observá-lo pelo vão entre as duas metades do plástico azul que foi improvisado como cortinas. Tirou a camisa, o sapato e deitou vestido com sua calça jeans.
Continuei bebendo, olhando as horas a cada cinco minutos e também para ele que parecia ter adormecido.

Fiquei assustada com vozes masculinas que se aproximaram da janela e pararam. Eu gelei. Olhei para o meu anfitrião que permanecia deitado sem mexer um músculo. Um dos caras falou:
— Acende o bagulho ai véi. — A voz era de alguém bêbado ou drogado.
O medo aumentou. Pela fresta da janela de madeira eu percebi a claridade que parecia ser de um isqueiro. Outra voz falou para eles continuarem andando e o que parecia ser dois ou três caras, felizmente foram embora.
Eu bebi compulsivamente o vermute e devo ter adormecido por alguns minutos e tido um pesadelo onde sofria abuso sexual e violência. Acordei com minha mão tocando meu sexo. Assustada tentei lembrar onde estava… A ficha caiu, vi o homem deitado em sua cama…Toquei meu sexo com mais intensidade e senti desejos por aquele homem negro de aparência rude. Levantei e caminhei mansamente até o vão da cortina, ele estava de olhos fechados e parecia que dormia.
Toda a tensão vivida em tão pouco tempo e aquele corpo másculo, acentuaram meu apetite sexual. Poderia estar cometendo mais um erro ao pensar apenas no sexo, mas não queria pensar racionalmente, só queria me deitar com ele e fui em direção de sua cama. Porém lembrei que havia prometido para mim mesma que não voltaria mais sem calcinha para casa. Dei dois passos para trás, enfiei as mãos por dentro do vestido e tirei minha lingerie e a coloquei em minha bolsa. Entrei naquele cubículo, receosa à princípio, mas meu lado safadinha assumiu o controle. Subi lentamente por cima dele e no momento em que ele abriu os olhos sem entender ao certo o que se passava, eu o beijei nos lábios… Fui correspondida e recebi um abraço de urso, gostoso e seguro. Ele deveria estar ali se segurando e provavelmente pensou em tomar a mesma iniciativa tomada por mim.
Continuei sentada por cima dele e com ele entre minhas pernas. Levantei meu vestido, o tirei pela cabeça e joguei em uma caixa de madeira que estava ao lado, fiz o mesmo com o sutiã.
Deitei novamente sobre ele, senti o calor do seu corpo enorme e o odor de suor que ao invés de repelir-me, atraiu-me ainda mais. Suas mãos grosseiras acariciaram minhas costas e bumbum durante nosso novo beijo, para em seguida virar meu corpo e deixar-me por debaixo dele. Sua boca deslizou até meus seios saciando sua vontade e a minha. Ronronei mansinho enquanto afagava seu cabelo crespo que precisava de um bom tratamento. Empurrei sua cabeça para baixo, queria sentir sua língua em minha parte mais íntima… Ah! Aquela língua safada me fez estremecer de tesão quando penetrou minha fenda após uma chupada que me fez elevar os quadris mais de vinte centímetros acima do colchão.
Não demorou quase nada para que eu gozasse na boca do homem, estava tão molinha e desconcertada que meu corpo parecia flutuar. Falei que era a minha vez. Invertemos a posição e abocanhei seu membro com alguma dificuldade, não era enorme, mas era muito grosso.
Não prolonguei muito as carícias, não queria que gozasse em minha boca, queria sentir seus jatos de gozo em meu sexo. Ajeitei-me por cima dele.
No caminho da Paulista, eu a amiga e o Pulga pegamos alguns preservativos grátis no terminal de ônibus, não sei se peguei apenas as pequenas ou se todas as borrachinhas naquele terminal eram de tamanho único, só sei que era inadequada para aquele pênis tão grosso, em vista da coisa rasgar no cós quando eu tentava cobrir o pirulitão. Peguei uma segunda e consegui ajeitar mais ou menos.
— Está bom assim — falei para tranquilizá-lo e não perder mais tempo. De imediato sentei com minha vagina em seu membro. Aii! A penetração estava difícil apesar de eu estar molhadissima, Lubrifiquei seu membro e minha xoxota com minha saliva e sentei com as perninhas arreganhadas e bem relaxada…Ahh! Foi mágico sentir aquele nervo exposto ir deslizando pouquinho a pouquinho para dentro das minhas entranhas. Soltei o ar longamente ao sentir que estava inteirinho dentro de mim.
Não demorou muito para que eu chegasse aos céus. Quando ele gozou eu quase desfaleci ao sentir seu jato potente inundando minha vagina e fazendo meu orgasmo se multiplicar por mil, o preservativo não aguentou o tranco. Não interromperia aquele momento por nada, mesmo porque já havia acontecido. Dei um foda-se e curti cada segundo daquela loucura.
— Deeeeuus! — exclamei — que tesão, que gostoso.
Pouco depois que ele tirou de dentro o seu pau todo melado com a capinha estourada e a sua glande de fora, ele olhou para mim com aquela expressão tipo pedindo desculpas e dizendo: “E agora?” Devolvi o olhar com a expressão: “sussa, quem se importa”. No mesmo instante eu tirei o resto de borrachinha do seu pau e joguei ao chão. O negócio dele ainda estava firmão. Acha que eu perderia a oportunidade?
Fiquei de quatro e virei o rosto olhando para ele com minha carinha mais safada. Ele me possuiu novamente e nos amamos com gemidos, tapinhas na bunda e respiração ofegante até a satisfação plena.

Nego Biu dormiu minutos depois. Eu ainda estava agitada, a overdose de adrenalina que tive naquele dia foi de tirar o sono.
Fiquei pensando no relato que ele fez minutos antes de dormir: “Eu não sou um comédia, o pessoal me respeita. Fiquei trancafiado e ausente por dois anos, mas isso aqui ainda é minha quebrada.”
Ele havia saído da prisão há menos de uma semana e sua primeira relação sexual foi comigo. Um cara do tipo dele, ao ficar tanto tempo sem ver uma mulher pelada, poderia ter forçado a barra comigo. Sua força e poder eram totais naquele momento e o homem poderia ter feito o que quisesse de mim. Como conseguiria evitar? Era a Bela contra a Fera. Contudo ele foi um lorde, demonstrou ser uma pessoa especial. Disse ter se encantado comigo à primeira vista, mas não tentou me conquistar por achar que havia um abismo entre nós, tanto em beleza, cultura e idade. Vendo a minha fragilidade, ajudar-me lhe bastava naquele momento. Isso já o faria feliz.
Entretanto ele estava enganado, a distância entre nós era pequena e eu não era uma patricinha. Quem ia para a cama comigo, não precisava ser participante de um concurso de beleza ou cheio da grana. Alguns caras são especiais e não precisam de muito esforço para possuir-me por inteira e sem pudores.
Ainda bem que não banquei a recatada ou teria perdido aquela noite de magias. Meu lado devassa tomou a iniciativa e rompeu aquela pequena barreira que nos separava.
O espaço que agora é ocupado pelo sentimento de prazer e satisfação estaria vazio se eu não tivesse tomado a iniciativa e me entregado àquele homem tão amoroso e cheio de pegada.
Momentos são únicos e cabe a nós sabermos identificar quando eles batem à nossa porta.

Era dia claro e de sol quando o Biu me acordou. Estava morrendo de sono e não lembrava a que horas tinha adormecido. Ainda não havia recebido notícias da Jéssica e nem liguei para ela, só queria sair fora e levar minhas provas no celular para mostrar para o pai dela.
Nós fizemos nossa higiene matinal e ele foi comigo até o ponto onde partia um micro-ônibus. Embarcamos juntos. Tivemos algum tempo para conversar e solidificar nossa amizade durante o trajeto. Ao chegarmos na estação de trem nos despedimos carinhosamente enquanto éramos observados pelos transeuntes. Segurando nas pontas dos seus dedos eu disse:
— Adeus, Nego Biu.
— Adeus, Mila.
Ele foi para um lado e eu para o outro.

Entregando o “Dossiê”.

Eu marquei um encontro com o pai da Jéssica em um shopping no centro. Assim que ele chegou eu dei um enviar em meu celular. Mandei os vídeos e as fotos que fiz no reduto dos traficantes para o e­mail dele. Claro que usei uma conta fake, não queria ter meu nome diretamente ligado à prova do crime. Após ver tudo que mandei ele ficou arrasado, dizia não acreditar que sua menina envolvera-se com gente desse tipo e estava se drogando.
— E ajudando em sequestros relâmpagos — arrematei.
Ele ficou puto e disse que ela não chegaria a tanto.
Continuei a tripudiar, afinal ele havia me humilhado semanas atrás dizendo que eu era invejosa e só estava criando intrigas porque ele não me queria mais.
— Esqueceu que você ameaçou a mim e indiretamente a minha mãe? Quero ver se você também é tão valente com os bandidos quanto é com mulheres. Ele me fulminou com o olhar, levantou bruscamente e temi ser agredida pelo policial, porém ele se virou e saiu fora pisando duro. 

Manchete de um Noticiário Local.

“Chacina deixa 4 mortos em Santo André.

A primeira chacina do ano ocorreu anteontem, em Santo André, é a terceira do ano na Grande São Paulo. Duas das três vítimas eram menores de idade.
Uma testemunha contou que por volta das 23h45, um carro preto com vidros escuros parou próximo à entrada do bar. Um homem com touca ninja desceu pela porta do passageiro com duas armas em punho. Dirigiu­-se até os quatro rapazes que estavam sentados em volta de uma mesa do lado de fora do estabelecimento. Sem dizer nada efetuou vários disparos sem dar a mínima chance de defesa aos mesmos. Os dois maiores de idade: um conhecido pelo pseudônimo Pulga, 21 anos, e o outro de nome Jaime Caetano (vulgo Jaiminho), 18 anos, foram os primeiros a serem baleados na cabeça. Os dois menores (16 e 17 anos) foram executados na sequência também com disparos na cabeça. A seguir o atirador correu até o automóvel que saiu em disparada.
O informante não soube descrever a marca e modelo do veículo.
A suspeita da polícia é a de que o assassinato tenha sido por disputa de pontos de venda de drogas. As quatro vítimas tinham passagens pela polícia por furtos e posse de entorpecentes.”


Após ler a notícia fiquei mais tranquila, pelo menos não teria mais problemas com esse grupinho de marginais.

***

Fui visitar a Jéssica semanas depois. Ela foi internada pelos pais em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos… Arrependi-me de ter ido, foi a coisa mais deprimente que já vi na vida, a amiga estava completamente dopada para controle da sua agressividade manifestada desde a morte do namorado marginal e o afastamento da família e vida social. Parecia uma planta na sombra em um dia frio de inverno, vegetava literalmente. Saí dali chorando e com o desejo de nunca mais voltar.

Passaram­-se meses e ​ eu não tive mais contato com a Jéssica, também afastei­-me da família dela. Fiz minha transferência para um colégio distante e minha mãe, por precaução e recomendação recebida do delegado, passara a variar suas rotas e horários regulares quebrando a rotina​. Só não troquei meu número de celular, então frequentemente recebia mensagens indesejáveis no WhatsApp, eram pedidos do policial (pai da Jéssica) para revivermos um passado recente e que eu queria esquecer. Momentaneamente eu continuaria ignorando e apagando as mensagens.

Fim


Beijos queridos amigos, até a próxima!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Correr e Sobreviver

Faltavam poucos dias para o réveillon, ainda tentava evitar que a Jéssica chegasse ao fundo do poço. Corria atrás de provas irrefutáveis para mostrar e convencer o pai dela. Acabei entrando em uma roubada ao atender o pedido da amiga e acompanhá-la até a avenida Paulista na festa da virada. Todos das nossas relações evitavam a Jéssica depois do seu envolvimento com o marginal. A garota aproveitou a ausência do pai que estava de plantão naquela noite e convenceu a mãe a deixá-la ir comigo. Eu só aceitei entrar com minha participação quando soube que seu namorado também estaria lá. Era uma oportunidade de registrar alguma coisa útil em um lugar seguro. Eu não a acompanhava mais nas baladinhas que aconteciam no bairro do cara, o lugar era muito perigoso para mim que não era da turminha deles.

O cara ficou incomodado com a minha presença e não perdeu a oportunidade de hostilizar-me. Eu não estaria lá se não estivesse em uma missão, nunca gostei da sua companhia e gostei menos ainda quando ele foi acusado de ter ter roubado o celular de uma moça. A coisa piorou quando a Jéssica e eu fomos apontadas como cúmplices. Começou uma discussão com um grupinho de amigos da moça e complicou de vez; uma outra vítima também se manifestou gritando que seu celular havia sido furtado do seu bolso. O negócio ficou punk e ia dar merda. Nos esgueiramos entre os demais na multidão e fugimos do local. Seguimos correndo por um trecho da avenida Paulista até avistarmos alguns policiais, diminuímos o ritmo para não sermos alvo da atenção deles. Eu e a Jéssica calçamos novamente nossos sapatos que estavam em nossas mãos, havíamos tirado, pois apesar dos saltos não serem altos, não era possível correr com eles. Continuamos com uma passada rápida.

Respiramos aliviados ao chegarmos nas proximidades do Metrô paraíso, no entanto era cedo demais para comemoração, o drama recomeçara ao ouvirmos os gritos de uns caras se aproximando rápido, era o mesmo grupinho e continuavam nos perseguindo.
Entramos na estação na tentativa de pegarmos um trem antes de sermos alcançados. A espera pela composição naquela plataforma foi angustiante, cada segundo parecia uma eternidade.
O alvoroço de gente gritando e correndo em direção à plataforma deixou-nos em pânico, estávamos encurralados. Os gritos foram abafados pelo barulho do trem que se aproximava. Segurei a mão da amiga e juntas fizemos uma espécie de oração:
— Vem trem, vem logo, por favor. Corre moço, pelo amor de Deus!
O trem parou e fomos vistos no momento em que entrávamos no vagão. A gritaria de “PEGA, PEGA, SEGUREM ELES” foi generalizada. O marginal dizia para ficarmos na moral e fingirmos que não era conosco. Entramos e permanecemos em pé rezando para que a porta fechasse rápido. O grupo se aproximava ensandecido correndo em direção à plataforma. Soou o apitinho característico de aviso, a porta finalmente fechou e o trem entrou em movimento. Ainda morremos de medo quando olhamos para as caras de ódio, mas também de frustração daqueles insanos, eles fizeram sinais agressivos em nossa direção e era fácil ler em seus lábios o monte de palavrões pronunciados. Nós três retribuímos mostrando o dedo mau para eles e rimos aliviados.
Depois do susto eu falei que ia pra casa, ainda mais depois que ele confessou que pegou mesmo o celular da mina, “ela tava dando mole com um bagulho da hora”, palavras dele. Para piorar ele mostrou mais dois que havia roubado. Minha felicidade em ter conseguido escapar de um provável linchamento passou logo, fiquei muito puta, o cara além de um drogado também era um ladrãozinho ralé. Não poderia externar o ódio que sentia por dentro, precisava manter o foco até conseguir provas contra aquele viciado ladrão.

Nós descemos na estação Tamanduateí perto da meia noite. Assistimos parcialmente a algumas queimas de fogos de dentro do micro-ônibus a caminho do buraco onde morava o marginal. A Jéssica havia ficado em meu ouvido o tempo todo implorando para não deixá-la sozinha. Eu não poderia chegar em sua casa antes dela, saímos de lá juntas e já estava combinado que eu dormiria lá, pois minha mãe foi para o litoral e só me deixou ficar a pedido da mãe da amiga e a promessa de dormir em sua casa.
A garota pretendia continuar a festa de Réveillon com o cara e na vila dele em Santo André. Ele disse que poderíamos ir a uma festinha na casa de uns “chegados” dele, alí aconteceria uma queima de fogos a 1h da manhã. Deus do céu, não era este Réveillon que eu havia desejado para este ano, contudo era a chance de conseguir umas imagens para o meu dossiê.


***

O lugar onde morava o Pulga (namorado da Jéssica) era um favela em um terreno que fora invadido. As casas eram construídas umas sobre as outras sem organização nenhuma e as ruas eram vielas sem infraestrutura. Descemos uma escada íngreme na lateral do terreno e ficamos algum tempo na casa de baixo. Aquilo mais parecia um porão e não havia outra saída, pois o final do terreno era uma ribanceira de mais de dez metros. A parede dos fundos e uma das paredes laterais eram encostadas no barranco. A do lado contrário a separava de outro imóvel tão simples quanto. Havia janelas e porta somente na frente.
Era no terreiro que rolava a festa ao som de um Rap marginal que tinha suas letras repetidas pelas vozes desafinadas das novinhas que gesticulavam em atitudes debochadas. Também eram repetidas por alguns caras do tipo bandidão mesmo.
Havia um ou outro que parecia ser do bem, aparentemente seriam vítimas e sobreviventes do meio em que nasceram.
A casa de cima só tinha dois cômodos, ali rolava outro tipo de festa em meio a muita libertinagem e sujeira. Era o lugar ideal para eu capturar imagens e mostrar ao pai da Jéssica o quanto a garota desceu. Mais algumas semanas enterrada neste submundo e a amiga estaria tão no fundo que não haveria mais a possibilidade de resgatá-la.
Espalhados por cima de uma mesa nojenta e bagunçada, havia garrafas de bebida, latinhas de cerveja vazias, resto de comida e algumas drogas. Deduzi pela quantidade que era apenas para consumo dos ali presentes e que acabara de ser consumida por dois caras e duas garotas que dormiam aos pares em uma cama e também em um colchão largado ao chão, ambos de solteiro. As roupas de cama pareciam panos de chão velhos de tão encardidas que estavam.
Acredito que os quatro apagaram de tão entorpecidos e sem praticarem qualquer ato sexual, já que não notei nenhum preservativo usado ou embalagem. As garotas apesar de estarem com a bunda de fora, já que os microvestidos não cobriam nada naquela posição, ainda estavam vestidas com suas calcinhas.

Mantive o meu celular na mão desde a nossa chegada, já com a intenção de tentar registrar tudo discretamente. Comecei a filmar mantendo meu braço abaixado e rente ao corpo. Captei as imagens da amiga sentada no colo do bandido enquanto ele alisava suas coxas com uma das mãos por dentro do seu vestido. Ele passou um baseado para ela com a outra mão, ela fumou o bagulho e ofereceu pra mim. Eu recusei e ela insistia sendo apoiada pelo carinha. Falei que não estava a fim e não estava legal depois de tanta agitação e bebidas. O bandidinho me chamou de fresca e levantou para pegar um pouco de farinha (segundo ele). Olhei para a Jéssica com uma expressão de súplica tipo implorando para sairmos fora dali. A sonsa sorria toda eufórica vendo o cara arrumar o bagulho sobre a mesa. Eu teria que fazer alguma coisa para tirar a garota daquela roubada, mas não de imediato, naquela noite eu já tinha meus problemas para resolver e o principal deles era sair inteira daquele lugar.

Fiquei em pânico quando o Pulga apontou para minha mão que segurava o celular e perguntou:
— O que é isso aí, mina? — Gelei de medo na hora.
Ele percebeu que eu estava filmando pensei. Tentei me fazer de boba colocando a mão para trás, desligando o celular e olhando para minha perna perguntando o que foi…Soltei um grito ao ver um um bicho em meu vestido, a princípio pensei ser uma barata enorme. Que nojo, eu falei após o grito histérico e sacudi minha roupa. O bicho voou, era uma mariposa. Ouvi um montão do cara e da amiga por ter feito tanto escândalo, depois ouvi ofensas ao recusar as insistentes ofensivas deles para que eu também cheirasse aquela droga. Tiveram o reforço de um outro cara, amigo do Pulga, era mais um noia para me atormentar. Só continuei recusando e dizendo que não estava legal. A garota já estava irreconhecível e inconveniente. Não respondi às suas provocações me chamando de careta entre outras coisas, visto que ela estava bêbada a princípio e drogada na sequência.
Fiquei em desvantagem, pois o carinha a defendia e incentivava, claro. Ele foi hostil comigo, me chamou de patricinha e disse que eu estava sobrando ali. Fiquei com medo, eu não poderia ir embora sozinha, não conseguiria andar duas quadras naquelas quebradas escuras sem ser abordada pelos tipos que vagavam por lá.
O Pulga em tom ameaçador mandou eu vazar dali dizendo já estar puto comigo. Pegou a amiga pela mão e disse que ia fazer um love com ela no quarto e não queria me ver quando voltasse. Antes de entrarem no quarto ele cochichou algo para o outro cara. Consegui captar a parte que ele mandou o moleque me levar pra fora dali.
Fiquei assustada, aquele lugar não era seguro, e não tinha como ir embora antes que amanhecesse.

O sujeitinho, amigo do Pulga, veio se insinuando e cambaleando para o meu lado, ele também já estava bem louco. Guardei meu celular na bolsa e tentei ir para a porta. Ele cheio de conversa cortou o meu caminho e foi me encurralando enquanto eu me afastava contornando a mesa e desviando do colchão que estava no chão. Eu não tinha mais para onde ir, era parede de um lado, mesa de outro e ele na minha frente. Encostei na mesa. O idiota tentou me beijar a força e eu recusei virando o rosto e pedindo inutilmente para ele parar. O cara ficou zangado e apertou meu pescoço com uma mão e de dedo em riste no meu rosto fazia ameaças falando que eu era uma putinha safada e era para parar “de fazer cu doce” ou o bicho ia pegar para o meu lado. Eu chorava de raiva e não de medo, eu não me deitaria com ele nunca. Nenhum noia iria me humilhar naquela noite.
Sua mão imunda puxou a alça do meu vestido e tentou colocar meu seio para fora; tanto foi a brutalidade que ouvi meu vestido rasgando. Eu relaxei e deixei que continuasse a descer o tecido até meu seio ficar exposto. Senti repulsa com o contato daquela mão nojenta em minha pele nua. Ele estava todo confiante e achando que eu ia colaborar. Falou:
— Ae, safada. Você é gostosa. Continua na manha! — Ele disse mais ou menos isso.
Ele aliviou a pressão no meu pescoço e foi com a boca direto no meu mamilo. Com as duas mãos eu acariciei seus ombros, continuei movendo as mãos por debaixo dos seus braços e fui com as palmas das minhas mãos em seu peito e o empurrei com toda a minha força. Ele tropeçou no colchão que estava por detrás dele e se estatelou de costas sobre o casal que estava deitado.
Eu corri porta afora. Tirei meus sapatos ou não conseguiria correr. Ouvi ele vociferar palavrões lá dentro e eu corri o mais que pude, no entanto eu não tinha para onde ir naquele lugar e naquela hora da noite. Calculei que ele não viria atrás de mim, o imbecil mal conseguia andar de tão chapado que estava.

Porém minha fuga foi inútil, fui surpreendida por três caras na segunda esquina. O mais velho deveria ter vinte anos no máximo, os outros dois eram menores de idade com certeza.
Eles me cercaram como lobos ao ver um filhote de ovelha desgarrada do rebanho. Senti-me tão indefesa e desiludida de tudo. Só pensava no pior e no que eles fariam comigo. E se o outro cara aparecesse naquele momento e fosse amigo deles, daí eu teria que rezar para sair dali com vida.
— E aí, novinha! Tá perdida aqui na área? — Falou um — Tá toda princesa, vem fazer uma festinha com a gente. — Um outro disse.
E foram muitas gracinhas ditas enquanto eu tentava sair do meio deles e pedia pelo amor de Deus para deixarem eu ir embora. Eles se divertiam com meu choro e o meu medo, mãos tocavam meu corpo em todos os lugares e um deles pegou minha bolsa, que era pequena e só cabia o celular, documento, uma ou outra maquiagem e algum dinheiro.
O celular foi a primeira coisa que ele pegou na bolsa, fiquei aterrorizada. A situação já era o caos, mas poderia piorar. Se eles vissem o conteúdo das filmagens com o Pulga e os outros em destaque, eu estaria fodida de vez. Ele ligou o celular, mas não conseguiria mais que isso, pois a tela é protegida por senha e eu nunca iria dizer a senha para eles. Os outros dois além de negociarem a divisão dos pertences em minha bolsa, também especulavam onde fariam uma “festinha” comigo.

Continua…



Beijos queridos amigos, até a próxima!
 

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