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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Capítulo Final - Noite Sangrenta

No dia seguinte quem chegou de surpresa ao cubículo das transas foi o nosso colega segurança, agiu rápido dando uma coronhada violenta na cabeça do vigia o deixando fora de combate. Arrastou o corpo para debaixo da minha cama. Temi que o salvadorenho estivesse morto depois das ameaças feitas pelos outros caras no dia anterior. Bateram muito nele, havia marcas feias de agressão em seu rosto. Minha esperança de fuga se renovara. Ele nos ajudaria a sair dali naquele instante ou teríamos poucas horas de vida, comunicou o nosso aliado. Ficou sabendo que pessoas da seita do cubano nos levariam para participar de um ritual satânico e a nossa participação seria como oferendas e nós seríamos as sacrificadas. Precisei apoiar a Jasmim para ela não cair quando suas pernas bambearam. O colega deu a cada uma de nós uma camiseta enorme e masculina do Miami Heat (time de basquete); desculpou-se por não ter conseguido roupas apropriadas, não havia mais tempo. Ficou até legal, parecia um vestido folgadinho e foi providencial, uma vez que duas garotas completamente nuas chamariam muito a atenção dificultando ainda mais a nossa fuga. Ele pediu para ficarmos em silêncio e ficou olhando para seu relógio. Quase tive um enfarte quando ouvi uma explosão e começou uma gritaria dentro do bordel.
— Vamos agora! — ele disse.
Saímos ao seu sinal nos esgueirando com cautela pelo corredor em sentido contrário ao da saída. O clima ficou tenso e agitado ao extremo, gritos diziam que a "Mara Salvatrucha" a gangue rival, veio para um acerto de contas. O apaixonado pela minha amiga falou rápido e resumidamente: procurou o hondurenho, falou sobre nós e pediu sua ajuda. Seus parceiros causaram a explosão do lado de fora e neste momento ele (o Héctor) deveria estar no interior do edifício, revelou o cara. Duas outras explosões aconteceram em sequência, ao seu comando nós corremos para os fundos e descemos dois lances de uma escada. Fiquei tomada de emoção e felicidade quando vi o Héctor degraus abaixo de nós, meu desejo era abraçá-lo e enchê-lo de beijos, apesar das duas armas empunhadas por ele. Mas não havia tempo para cumprimentos, beijos ou abraços. Descemos correndo para fugirmos pela saída secreta existente na primeira sala, logo ao pé da escada (segundo o salvadorenho). Não teríamos chance de sair pela entrada, os inimigos em peso estariam lá buscando os responsáveis pelas explosões.
Chegando na tal sala os homens arrastaram uma geladeira posicionada ao fundo, seguraram e puxaram para o lado uma parede móvel, ela escondia a entrada de um túnel usado no transporte de material ilícito e também pessoas. A alegria momentânea transformou-se em pesadelo quando o salvadorenho disse transtornado:
— Não é possível, não existia esta grade aqui.
Barras de aço com uma fechadura trancavam a entrada do túnel. O clima de tensão piorou ao ouvirmos passos de alguém descendo correndo as escadas. Fiquei tão assustada quanto o recém chegado quando nos viu e de imediato apontou sua arma e atirou em nossa direção. Os homens em nossa companhia atiraram de volta... O intruso caiu, o salvadorenho também, um tiro acertou em cheio o seu peito e ele desabou. Um silêncio mortal durou por alguns segundos, até que o hondurenho abaixou para verificar as funções vitais do nosso aliado. Ele balançou a cabeça negativamente dizendo que o colega estava morto. A amiga teve uma crise de choro, eu a abracei, ao mesmo tempo dei atenção ao homem nos alertando sobre os tiros terem alertado os outros, logo teríamos companhia e era preciso estarmos preparados.

O Héctor deitou a geladeira e defronte dela uma mesa, era como se construísse uma barricada para proteger-nos, ele temia por um tiroteio. Pediu para ficarmos em silêncio absoluto e irmos para detrás da proteção ao seu sinal. Caminhou até o pé da escada, verificou se o bandido estava morto, pegou a arma do cara e depois o arrastou para um canto o escondendo. A seguir ele quebrou as lâmpadas de uma luminária do teto próximo da escada e juntou os cacos logo abaixo ao primeiro degrau. Eu ia perguntar para que serviria aquilo, mas ele pediu silêncio. Claro, aquilo não era para cortar os pés dos caras e fazê-los sangrar até a morte, né? Pensei.
O estrategista fez sinal para irmos para detrás da barricada, apagou a luz da sala e ficou posicionado fora dela, apagou a última luz e ficamos na penumbra. Um minuto depois ouvimos passos apressados de pessoas descendo as escadas, comecei uma oração, porém o meu repertório era minúsculo e depois da ave Maria eu não sabia mais para que santo rezar. Fez-se silêncio por um tempo angustiante, só então ouvimos sussurros de homens falando algo incompreensível, mas era nítido que desciam as escadas devagar em nossa direção. Eles estariam com dificuldades por causa da escuridão e cautela para não serem surpreendidos... Ouvi um som característico de vidro sendo moído e a seguir vários disparos de arma de fogo. Quase gritei ao ouvir os tiros bem próximos, contudo deduzi terem sidos disparados pelo hondurenho. Aguardamos outros segundos torturantes de silêncio até a luz clarear o local e ouvir a voz do Héctor dizendo ter acertado e derrubado os caras. Eu e a Jasmim levantamos cheias de medo. O hondurenho disse que era a chance de sairmos dali e tentarmos uma outra rota de fuga.
De repente ouvimos um tiro similar ao estrondo de um canhão. Fiquei desesperada ao ver um fio de sangue saindo da cabeça do Héctor e ele desabando de costas no chão. O homem ficou inerte. Eu e a amiga não seguramos um grito de pavor e voltamos para detrás da proteção; não adiantaria de nada, nós sabíamos, já que não estávamos armadas e seríamos presas fáceis para aqueles animais. Eu pensei na punição imposta por nossa tentativa de fuga, pagaríamos com a vida e seria de imediato.
Dois caras conversavam e um deles gritou para sairmos com as mãos para cima, ou eles iriam entrar atirando. Eu olhei assustada e cheia de dúvidas para a amiga, pois achei que eles atirariam assim que vissem a gente. Ela estava em prantos e balançava a cabeça negativamente, não queria sair. O cara disse que contaria até 5 e se não saíssemos eles nos encheriam de chumbo... 1, 2, 3, 4...

— POLÍCIA DE MIAMI, LARGUEM AS ARMAS! — foi a ordem dada por alguém mais acima nas escadas. Na sequência ouvimos os palavrões pronunciados pelos pistoleiros e vários tiros de ambos os lados. Quando cessaram os disparos só ouvíamos o choro da Jasmim, os meus soluços e as batidas fortes e aceleradas do meu coração. Uma voz ordenou:
— Saiam agora e mostrem as mãos! — Eu conhecia aquela voz, era do Carlos. Eu gritei dizendo para não atirarem, eu sairia com a minha amiga. Levantamos receosas olhando para tudo, só tinha o corpo do Héctor caído e sem vida, meu coração ficou apertadíssimo e não segurei uma crise de choro.
Com a presença do Carlos e o Xavier, acreditei que finalmente aquele pesadelo chegaria ao fim. Os policiais perguntaram se havia mais alguém conosco, respondi negativamente e tremendo e arrasada me aproximei do Héctor. Abaixei para acariciar o seu rosto, ele suspirou levemente ao toque da minha mão e abriu os olhos.
— ELE ESTÁ VIVO! — gritei com toda a minha alegria.
Sentei no chão e o puxei para cima de mim deitando sua cabeça em minhas pernas. O acariciei e chamei de louco suicida.
— Se você fizer isso de novo eu te mato — falei sem saber o que dizia, de tão feliz que estava.
O Carlos se aproximou de arma em punho, enquanto o Xavier recolhia as armas dos caras caídos e verificava se os bandidos estavam mortos. Falei sobre o ferido em meu colo, ele não era um dos bandidos, foi baleado enquanto tentava nos libertar e defendia a gente. O Carlos disse ter conhecimento, fora ele, o hondurenho, quem fornecera as informações sobre as atividades do local e também da situação punk em que eu me encontrava.
Com dificuldade o homem tentou se levantar, ele parecia grogue. Eu o ajudei, passando o braço em sua cintura e ele se apoiou em meu ombro. O policial verificou o ferimento, não era grave, a bala passou de raspão e ele teve muita sorte de não ter sido uns milímetros mais para dentro ou teria sido fatal. Ele só sentiria dor de cabeça por alguns dias, explicou.

Enquanto os policiais davam uma verificada rápida no local, eu dei um beijo no hondurenho e agradeci por não ter desistido de mim. O homem da SWAT disse que não era hora para isso, precisávamos estarmos atentos e sairmos com cuidado, pois poderia haver mais bandidos escondidos no prédio.
O Héctor perguntou para os policiais o que aconteceria a seguir. A resposta do Xavier foi assustadora, todos prestariam depoimento no distrito.
— Vocês sabem que eu irei direto para o presídio se for ao distrito — ele disse aos homens da lei.
Eu olhei para o Carlos implorando para não levá-lo, pois se ele não se arriscasse para nos salvar, estaríamos mortas. Também pedi a piedade do Xavier junto com a Jasmim, ela foi contundente e solidária comigo, pediu pelo amor de Deus para deixar-nos ir. A amiga ainda tinha o fato de estar ilegalmente no país, seu visto vencera há muitos meses.
Depois de pensar um pouco e olhar para o companheiro, o Carlos falou olhando para o homem que apertava carinhosa e nervosamente as minhas mãos.
— Se você passar pela porta conosco, eu não poderei fazer nada por você e nem pelas moças, elas dificilmente escaparão da acusação de prostituição, visto que já praticavam por livre arbítrio anteriormente ao início deste episódio.
A conversa foi interrompida pelo aparelho comunicador do policial. Ele respondeu ao seu superior que estava tudo dominado naquele setor. Ao término da comunicação o hondurenho falou:
— Eu sei como desaparecer daqui levando elas comigo sem sermos vistos.

O policial olhou para o seu parceiro como quem pede uma cumplicidade. O Xavier falou com os olhos e uma expressão de rosto característica em algumas pessoas. Deu a entender o seguinte: "você decide companheiro".
O Carlos deixou o coração falar mais alto, o seu colega de serviço e amigo na vida pessoal também.
— Vocês têm dois minutos para sumirem antes da equipe descer aqui — falou o Carlos.
Meu coração ficou radiante de alegria, seria eternamente grata. Aquele moreno estaria sempre em meu coração, e não só por este caso em especial, também pelos outros momentos mágicos vividos por nós. Agradeci aos policiais, em especial ao Carlos, só não sabia ainda como sairíamos dali. O hondurenho falou para o Xavier que precisava do revólver Magnum de um dos bandidos, o mesmo cuja bala o atingiu de raspão. Abriria a fechadura com os disparos da arma. O Xavier hesitou e o Carlos falou: "um minuto e meio". O policial deu a arma para o Héctor, ele deu dois tiros na fechadura. Fiquei surdinha com os estrondos e feliz ao ver a danada da fechadura ficar em pedaços e a porta abrindo. Graças a Deus. No mesmo instante os comunicadores dos policiais "chamaram" novamente.
— VÃO, VÃO, VÃO! Gritaram os dois ao mesmo tempo, antes de atenderem ao chamado.

Eu e a Jasmim jogamos beijos de despedida e saímos correndo atrás do hondurenho. Atravessamos o túnel até sairmos nos fundos de uma residência vizinha ao prédio. Fugimos de um cachorro vigia do local e pulamos uma cerca de tela.

Depois de nos afastarmos duas quadras do cabaré Paradise, o Héctor quebrou o vidro dum carro estacionado na rua e fez uma ligação direta. Eu teria ficado muito puta em outra situação, mas naquele instante era necessário e caso de sobrevivência, eu só pensava em sair dali. Seguimos a milhão até a residência da Jasmim, ela pegaria seu passaporte e outras coisas. A ajudei a encher duas malas e saímos fora, os bandidos deveriam estar atrapalhados com a polícia, mas logo seríamos perseguidos.
Ainda quando estávamos a caminho da casa da amiga, o hondurenho ligou para um dos seus parceiros pedindo para dirigir-se até o local. O cara havia chegado e trouxe as minhas coisas deixadas na casa do Héctor: mochila com meu passaporte e dinheiro e a mala. O homem já havia antecipado a nossa fuga da cidade. Trocamos de carro com o cara e continuamos em frente.

Rodamos por mais de quatro horas até chegarmos ao aeroporto de Tampa (Flórida). A Jasmim pegaria um voo para a casa do seu irmão em Massachusetts. O Héctor disse para ela não embarcar de Miami ou Fort Lauderdale, os chefões mandariam seus capangas procurar-nos nesses aeroportos, rodoviárias e estações de trem nos arredores, devido ao grande prejuízo causado por nós em seus negócios. Uma grande quantia em dinheiro ilegal estava escondido naquele porão; o nosso colega morto havia dito para o hondurenho que além de coordenarem um esquema de prostituição, a boate servia para lavagem de dinheiro do narcotráfico. A Jasmim concordou, nos últimos dias nós ficamos sabendo onde havíamos nos metido, não era só prostituição, aquela gente era organizada e perigosa, estavam ligados a tudo de ilegal na Flórida. Ela estava ansiosa para voltar ao seu país (Colômbia), isso aconteceria em dois ou três dias, desabafou.
Depois de abraços, lágrimas e agradecimentos, a amiga foi comprar a sua passagem enquanto eu e o hondurenho seguimos viagem. Ele não havia falado para a garota a respeito do nosso destino (estávamos indo para a Califórnia), nem eu sabia até então. Prosseguimos rumo à Los Angeles e de lá eu planejaria o meu retorno ao Brasil.

Durante aqueles três dias de viagem, sendo duas noites em motéis, ele pediu muito para eu não partir, poderíamos morar na Califórnia ou algum outro estado e os "donos da noite" nunca nos achariam. Falei que o meu visto venceria logo, não queria ficar ilegal no país e não poder voltar depois. Também precisava resolver umas coisas em minha cidade, tinha um apartamento e uns investimentos bancários e só resolveria estando lá.
— Vem comigo para o Brasil — eu pedi quase como uma súplica.
Ele disse que não poderia, com certeza seria preso ao tentar sair do país, o homem tinha alguns problemas com a justiça. Além do mais, seria impossível tirar legalmente o seu pequeno patrimônio acumulado ao longo de sete anos nos EUA.
Ficamos em um impasse, os dias passaram e nós curtimos cada minuto juntos. Acompanhamos diariamente as notícias sobre a invasão da boate. Além dos que vimos morrer, vários outros foram mortos no confronto. O mexicano e sua mulher foram presos horas depois. Fiquei radiante de alegria ao saber das garotas prisioneiras, todas foram libertadas. Várias delas concordaram em ajudar na identificação dos criminosos e teriam a proteção da justiça para poderem testemunhar contra os mafiosos.

Chegou o dia e hora do meu embarque. Demos um último abraço forte e silencioso durante muitos minutos. Aos prantos ainda consegui prometer que voltaria para ele em breve. Ele, no entanto, não conseguiu dizer mais nada, pela primeira vez o vi ficar emotivo e senti uma pontinha de insegurança naquele machão guerreiro.


***

Dias depois no Brasil, em uma noite de uma quarta-feira sem graça, como de costume preparava o meu jantar enquanto ouvia a rádio WKTA (Miami) em um aplicativo de nome "Tunein". Uma notícia sobre o bairro em que morei nos EUA chamou a minha atenção:

"A invasão violenta de um condomínio em Little Havana, Miami, deixou um morto e várias pessoas feridas. A polícia bloqueou as ruas do bairro na tentativa inútil de interceptar os criminosos. O homicídio ocorreu em um condomínio na SW 3nd St com a NW 15th Ave. Homens mascarados invadiram o prédio, espancaram e roubaram os moradores. Um deles foi ferido mortalmente com vários tiros. Um morador do apartamento ao lado da vítima, Samuel Hernandes, disse que três homens armados e mascarados renderam o cubano quando ele abriu a porta, provavelmente por ter ouvido um barulho incomum — ele era o proprietário e síndico do edifício, comentou outra moradora de nome Amanda. Os bandidos deixaram o condomínio levando dinheiro, joias, celulares e a vida do seu amigo Ramon, morto com vários tiros.

Os bandidos escaparam ao cerco policial, ninguém foi capturado. Segundo os policiais, eram membros de uma gangue conhecida pelo codinome "La Mara", ou seja, a Mara Salvatrucha, uma das gangues que controlam o submundo da Flórida entre outros estados.
"

Não ouvi mais nada, lembrei da promessa do Héctor de ir atrás do cubano Ramon. Fiquei digerindo a notícia e maldosamente pensei...Eu sabia que iria sapatear em sua tumba seu coroa FDP. Aquele tiozinho não merecia o ar que respirava. Terei uma preocupação a menos quando retornar a Miami para matar a saudade que sinto do meu hondurenho.




Beijos queridos amigos. Até a próxima história.

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