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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Fascínio pelo Proibido

Três meses se passaram após o policial (pai da Jéssica) ter vindo à minha casa fingindo ser um encanador. Fiquei muito puta naquela noite de sábado, dia do nosso último encontro; era uma oportunidade rara em que consegui ficar sozinha em casa durante o final de semana e havia planejado uma noite especial com diversão e prazeres com o quarentão, mas o idiota só deu uma rapidinha e saiu fora me deixando chupando o dedo e cheia de raiva. Por que nós garotas nos encantamos tanto por caras maduros, casados e canalhas? Minha esperança era de que quando fosse adulta já estaria vacinada contra estas pragas e saberia selecionar melhor os meus parceiros.
Por falar em canalhas… O namorado da mamãe (André) começou a frequentar assiduamente a nossa casa. Minha mãe ficou brava comigo quando ironizei perguntando por que ela não dava a chave de casa pra ele de uma vez, já que o homem praticamente fixou moradia. Ela já havia dado uma cópia respondeu e também disse que a casa era dela e coisa e tal.
Pais e, adultos em geral, adoram usar o poder econômico para humilharem e se sobreporem aos filhos e aos mais jovens. Sussa, eu sempre soube que aquela casa não era minha mesmo, porém eu estava cheia de ideias quanto ao namorado dela, afinal mamãe não tinha nenhuma escritura de posse do homem.

Início de noite de um sábado quente. Eu estava em meu quarto e ouvi quando o André chegou. Eu já sabia que eles iriam em uma festa. Esperei alguns minutos até minha mãe ir para o banho, seu quarto era colado ao meu e já estava acostumada com os detalhes indicando que ela estava dentro do box com a ducha ligada. Fiquei completamente nua e vesti apenas um robe leve e curto. Peguei um vidro de óleo para o corpo e desci até a sala.
O André estava no sofá assistindo televisão. Dei um “Oi” ao passar por detrás dele e perguntei se minha mãe estava na cozinha. Respondeu que ela estava no banho.
— Ah! Que pena, ela não vai querer passar o óleo em mim depois do seu banho .
Fui até o sofá e sentei ao seu lado. No ato de sentar o meu robe foi parar acima do meio de minhas coxas. Ofereci o vidrinho para ele e falei com carinha e voz de coitadinha:
— Você pode passar o óleo em mim, por favor? Ou não conseguirei dormir com uma dorzinha que está me incomodando.
Surpreso, porém gentil ele respondeu que sim e perguntou onde deveria passar. Nos ombros e costas foi a minha resposta. Virei de costas para ele, desci a seda fina até a minha cintura e cobri os seios com as mãos.
— Pode começar — falei.
Sorrindo safadamente comigo mesma aguardei o contato de suas mãos em meu corpo.
Outro cara menos safado e mais sensato diria que aquilo era loucura e teria mandado eu me recompor. E teria razão; a chance daquilo acabar em merda era enorme.
Porém o homem não era um exemplo de sensatez. Começou com movimentos rápidos como se passasse cera em um piso. Evidente que ele curtiu a situação, mas o medo de ser flagrado por minha mãe o deixou apressado e inseguro. Soltei um “Ai” só de farra e pedi para massagear mais devagar. Suas mãos tremiam, deveria estar preocupado em ser visto nesta circunstância inexplicável.
Míseros minutos depois ele falou que já estava bom. Choraminguei reclamando de uma dor na coluna, pedi para entornar o vidrinho no alto e deixar o óleo escorrer por minhas costas, depois era só massagear até embaixo. Ele falou que não era boa ideia pois minha mãe sairia logo do banho. Respondi que ela ainda demoraria e eu ouviria quando a porta do box fosse aberta. Está tudo bem, falei com serenidade o tranquilizando. Eu ficara de frente para o André, ainda com as mãos cobrindo os meus mamilos, enquanto tentava convencê-lo a continuar com o jogo perigoso.


Cheio de pressa ele pediu para eu virar novamente. Senti o óleo escorrer por minha pele, a seguir sua mão deslizou por minha coluna e tocou o início do meu rego, senti um arrepio gostoso. Por diversas vezes seus dedos acariciaram, digo, massagearam aquela região tão sensível. Meu tesão foi a milhão e não segurei um gemidinho. Quase empinei a bunda para sentir sua mão tocar mais fundo em mim.
Caraca! Percebi sons característicos de final de banho. Levantei rápido ajeitando o robe e ainda estava com os peitos de fora quando virei para ele. — Me dá o vidro, rápido! Minha mãe saiu do banheiro.
O homem apavorado esticou a mão, eu peguei o óleo e sai correndo subindo as escadas. Minha mãe estava no closet escolhendo uma roupa e não viu quando passei feito uma flecha pela porta do seu quarto.

***

A vida seguia em frente e o meu contato com a amiga Jéssica diminuía; foram raros os nossos papos naquele período, apesar de estudarmos no mesmo colégio. A garota só me procurava para pedir que eu fosse cúmplice em suas mentiras ditas para os pais. Eu inventava falsos compromissos envolvendo minha mãe e família com o intuito de recusar seus pedidos de ajuda para que ela pudesse passar as noites de finais de semana em baladinhas com o seu namorado trombadinha e drogado.
E a sonsa só piorava, não se contentou com a tolice que estava cometendo ao se envolver com um noia da turminha do mal “o Jaiminho”, mas a fila anda e ele passou a ser ex namorado. Ela se envolveu com outro cara de uns 20 anos e metido a líder dos moleques marginais da sua área. O Jaiminho e outros sangues ruins o consideravam como chefe e o temiam. O QI da Jéssica não era privilegiado, mas não imaginei que seria capaz de se meter nessa roubada, o tipo era só mais um trombadinha sem atrativos.
Eu me afastei completamente da garota que estava irreconhecível, matava muitas aulas e se bandeava cada vez mais para o lado do submundo. Na maioria do tempo vivia enfiada no buraco onde moravam os marginais. As outras meninas comentavam sobre o seu consumo de drogas mais pesadas, ela já era uma dependente química.
Eu fiz nova aproximação tentando ajudar a ela, a mim e também a minha mãe. Foi logo após acontecer algo terrível; temia que o ocorrido fosse só o início de uma série que estaria por vir. Vou contar o caso:
Minha mãe sofreu um sequestro relâmpago em uma noite após fechar a loja. Foi rendida por três caras, dois deles aparentavam 15 anos no máximo, segundo ela. Colocaram-na dentro de um carro e rodaram em busca de caixas eletrônicos para efetuarem saques e encontrarem lojas onde pudessem fazer compras sem despertarem suspeitas. O prejuízo foi superior a 5 mil reais. Além dos saques e compras com seus cartões, eles levaram uma quantia em dinheiro de sua bolsa.
O drama poderia ter sido pior. Em certo momento ela ficou sozinha com os dois menores dentro do carro em uma quebrada escura e sem testemunhas. O adulto havia saído com os cartões para fazer saques nos caixas 24h. Minha mãe contou que um dos moleques falou mais ou menos assim:
Aí, véi! A dona é a maior gostosa. Vamos dar um trato nela?
Usando de força bruta o escroto tentou expor os seios dela forçando sua blusa para cima. Mesmo estando sob a mira de uma arma ela lutou com o cara frustrando o seu intento. Minha mãe levou um soco no rosto e foi ameaçada de levar um tiro se não ficasse “pianinho” e transasse com ele. Não foram exatamente estas as palavras do marginal, segundo minha mãe, ela ficou com vergonha de dizer exatamente como foi dito.
O outro carinha interveio dizendo para ele parar. Começaram a discutir e com ameaças mútuas, cada um querendo ser mais macho que o outro. O que tentava evitar o estupro falou demais, comentou sobre o Pulga ter alertado para serem profissas. A parada era só para pegar a grana e saírem fora. Eles ficaram quietos se olhando e o taradinho disse:
— Você é um puta de um vacilão.
O outro virou o rosto e ficou quieto.

Pulga… Era o atual namorado da Jéssica. A garota estava envolvida, com certeza foi ela quem deu informações sobre a nossa rotina ao bandido do seu namorado e ele repassou para os seus parceiros.
Felizmente o prejuízo foi apenas financeiro. O cara com os cartões voltou logo depois e a liberaram, dado que os cartões atingiram o limite de saques e compras para aquela noite.
Eu não falaria nada para minha mãe a respeito do Pulga, pois se a polícia fosse atrás deles, nós duas sofreríamos represálias mais tarde. Iria atrás do pai da Jéssica, ele é policial militar e saberia o que fazer.

***


Conversei serião com o Aloísio (pai da amiga). Informei-o sobre o cara que sua filha estava namorando e os lugares frequentados por ela ultimamente. Ele não acreditou no lance das drogas e nem que este Pulga fosse namorado da filha. O homem bloqueou a mente, estava envolvido demais com a filha e era seu refém, a garota sabia demais sobre os podres do pai: ter transado comigo em sua casa e na mesma cama em que ele dormia com sua mulher, era gravíssimo, porém era mais grave a relação promíscua mantida com a própria filha. Filha e amante.
Ele me humilhou dizendo que tudo isso era invenção minha por sentir ciúmes da Jéssica e porque ele não me procurou mais.
O estúpido ainda foi bruto e ameaçador dizendo que eu e minha mãe poderíamos sofrer um acidente caso eu continuasse caluniando a sua filha.
Que louco filho da puta, fiquei arrasada com a atitude deste homem que me usou sexualmente quando lhe era conveniente e agora me tratava como se eu fosse uma vadia qualquer.
Eu mandaria este policial safado e sua filha irem se foder, mas os bandidos continuariam soltos e nada impediria uma nova investida contra a minha mãe ou contra mim.
Precisaria conseguir provas concretas para mostrar ao homem o atoleiro onde se metera a sua filha. Acreditava que o policial da Rota saberia como tirar o marginal de circulação para afastar a filha daquele meio. Se é que ainda havia tempo.

Por hora, eu continuaria fingindo ser amiga da garota e trataria o seu namorado com simpatia para não perceberem o quanto eu sabia sobre os bandidos.
Iria correr tantos riscos quanto fossem necessários para conseguir as provas.

Continua…



Beijos queridos amigos, até a próxima!

domingo, 25 de dezembro de 2016

Samba da Laje

Enfim, férias de julho. Tive pouco ou quase nenhum contato com a Jéssica (até então minha melhor amiga) durante aquele mês.
No pós-férias em nosso primeiro dia de aula, depois de colocarmos a fofoca em dia ela me convidou para uma festinha de aniversário do seu "ficante" do momento. Bateu um sinal de alerta quando soube que era um carinha que não saia da entrada do colégio, porém nem sabia se frequentava as aulas. O sem noção sempre estava na rodinha de uma "turminha do mal". Sugeri que ela saísse fora, era roubada com certeza.
Quem tem uma melhor amiga dramática como era a minha, sabe o que acontece nessas horas. A garota disse que eu era egoísta e não queria vê-la de boa e blá blá. Deixei quieto no momento, aos poucos tentaria mostrar-lhe os defeitos do cara e tirar a amiga desta cilada. Percebi que o momento não era propício para recusar o convite da festinha, no entanto fiquei com um pé atrás e quase mudo de ideia quando soube que seria em um bairro no extremo da periferia.

No sábado à noite encontrei com a amiga no local combinado onde o carinha nos pegaria. A Jéssica ficou irada quando viu meu visual, disse que eu parecia uma pedinte. Vesti um conjunto surradinho de blusa, calça jeans e uma sapatilha de lona bem podrinha. "Acha que eu pagaria de patricinha?" Ouço os comentários todos os dias sobre como a região é violenta, era capaz de voltar de lá até sem as calcinhas... Hahaha. Claro que exagerei, apenas quis vestir algo mais simples.
O carinha chegou com o possante, fiquei preocupada que se ele desligasse o bicho, teríamos que empurrar a tranqueira pra pegar novamente.
A tal da festinha não era na casa dele, nem em um barzinho. Fomos convidadas a conhecer o famoso "Samba da laje". Na entrada do pagode ganhei um copo de "maria mole" conhaque Dreher com Contini branco. "Aff! A noite será animadíssima!" pensei sem perder o bom humor. Todavia, quando senti um cheiro diferente que saia junto com a fumaça de cigarros que alguns fumavam, achei que seria melhor ficar em um canto mais afastado, já que não poderia ficar sem respirar.
Mas a festa estava bem animada. Samba da laje era somente um termo, a música predominante era o Funk. Novinhas que aparentavam ter no máximo 13 ou 14 anos se acabavam na dança maliciosa vestidas com suas minissaias (e sem as calcinhas).


Não tive a companhia da minha amiga por muito tempo, o casalzinho deixou-me com as supostas primas do carinha e deram um perdido por mais de uma hora. Seria difícil afirmar quem estava mais louca quando eles voltaram, eu com a mistura de bebidas ou ela que apesar do sorriso de prazer tinha uma expressão de entorpecida.

Mais tarde, depois que insisti muito, ele nos levou embora. As ruas no entorno do local pareciam motéis ao ar livre. Novinhas e carinhas se pegavam em pé nos muros, portões de garagens e de tão loucos que estavam, nem tentavam disfarçar o ato sexual quando eram iluminados pela luz dos faróis do carro.
Chegamos tardão ao apartamento da amiga, fomos dormir sem que seus pais vissem nosso estado.
Não era a primeira vez que voltava à casa da Jéssica depois daquele "love" que tive com o pai dela, em outras ocasiões também rolou um clima entre eu e o coroa, no entanto não chegamos até às atividades de alto impacto.
Na manhã seguinte, depois da baladinha, o homem forçou a barra e por pouco não deu merda das grandes.
A mãe dela saiu para ir à igreja naquela manhã de domingo, eu e a amiga não acordaríamos tão cedo (reflexos da baladinha). Quase morri de susto ao acordar com mãos erguendo meu corpo, era o pai dela, ele fez sinal para eu ficar quieta e não chamarmos a atenção. Levou-me para o quarto do casal.
Não adiantou chamá-lo de louco e que aquilo não ia dar certo, em segundos deixou-me sem a calcinha, deitada de costas com as pernas levantadas e arreganhadas enquanto sua boca sugava meu sexo. Era mais uma dose de adrenalina, daquelas que me faz cometer loucuras, contudo sempre há a recompensa de orgasmos mágicos que valem a pena.
O risco de ser pega pela amiga ou a mãe era enorme e só aumentou minha libido. Estava quase gozando na boca do policial safado quando ele parou as sugadas, tirou a cueca e veio por cima de mim e tentou me penetrar. Insisti para que ele pegasse uma camisinha, estava desprotegida e também não poderíamos deixar vestígios.
Após estar coberto pelo preservativo, seu membro penetrou minha fendinha arrancando-me gemidos contidos. Enlacei suas pernas com as minhas e curti aquele papai e mamãe. Não demorou muito a gozar, também cheguei ao clímax pouco depois de sentir a borrachinha morninha e as pulsações do seu membro em minha grutinha.
Assim que tirou de dentro, alisei seu membro vestido com a capinha, eu continuava cheia de desejos e querendo mais. O pênis do coroa não tinha amolecido totalmente, senti que recomeçava a enrijecer com meus carinhos, entretanto o homem estava praticamente me expulsando do quarto com medo que fossemos pegos. Bem que eu quis discutir a relação já que foi ele que me procurou e provocou, porém deixei quieto.
Cheio de pressa vestiu a cueca e foi para a esquerda em direção ao banheiro para tirar a camisinha e sumir com ela. Eu virei pra direita e levei um susto ao ver minha amiga saindo pela porta do seu quarto e surpreendendo a mim e seu pai. Imaginei que a garota tentava entender o que teria acontecido.
Ela voltou comigo para o dormitório e, claro, quis saber tudo o que eu fiz nos últimos minutos. Expliquei que tinha ido ao banheiro e o pai dela apareceu de repente quando eu caminhava pelo corredor.
Ela acreditou, ou fez que acreditou. Fiquei com uma pulga do tamanho de uma capivara atrás da orelha. Pensei "será que ela notou a barraca armada na cueca do pai? Se notou, com certeza não acreditou na minha história".



Beijos, continua no conto "Telhado de Vidro", já publicado aqui no Blog.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Capítulo Final - Noite Sangrenta

No dia seguinte quem chegou de surpresa ao cubículo das transas foi o nosso colega segurança, agiu rápido dando uma coronhada violenta na cabeça do vigia o deixando fora de combate. Arrastou o corpo para debaixo da minha cama. Temi que o salvadorenho estivesse morto depois das ameaças feitas pelos outros caras no dia anterior. Bateram muito nele, havia marcas feias de agressão em seu rosto. Minha esperança de fuga se renovara. Ele nos ajudaria a sair dali naquele instante ou teríamos poucas horas de vida, comunicou o nosso aliado. Ficou sabendo que pessoas da seita do cubano nos levariam para participar de um ritual satânico e a nossa participação seria como oferendas e nós seríamos as sacrificadas. Precisei apoiar a Jasmim para ela não cair quando suas pernas bambearam. O colega deu a cada uma de nós uma camiseta enorme e masculina do Miami Heat (time de basquete); desculpou-se por não ter conseguido roupas apropriadas, não havia mais tempo. Ficou até legal, parecia um vestido folgadinho e foi providencial, uma vez que duas garotas completamente nuas chamariam muito a atenção dificultando ainda mais a nossa fuga. Ele pediu para ficarmos em silêncio e ficou olhando para seu relógio. Quase tive um enfarte quando ouvi uma explosão e começou uma gritaria dentro do bordel.
— Vamos agora! — ele disse.
Saímos ao seu sinal nos esgueirando com cautela pelo corredor em sentido contrário ao da saída. O clima ficou tenso e agitado ao extremo, gritos diziam que a "Mara Salvatrucha" a gangue rival, veio para um acerto de contas. O apaixonado pela minha amiga falou rápido e resumidamente: procurou o hondurenho, falou sobre nós e pediu sua ajuda. Seus parceiros causaram a explosão do lado de fora e neste momento ele (o Héctor) deveria estar no interior do edifício, revelou o cara. Duas outras explosões aconteceram em sequência, ao seu comando nós corremos para os fundos e descemos dois lances de uma escada. Fiquei tomada de emoção e felicidade quando vi o Héctor degraus abaixo de nós, meu desejo era abraçá-lo e enchê-lo de beijos, apesar das duas armas empunhadas por ele. Mas não havia tempo para cumprimentos, beijos ou abraços. Descemos correndo para fugirmos pela saída secreta existente na primeira sala, logo ao pé da escada (segundo o salvadorenho). Não teríamos chance de sair pela entrada, os inimigos em peso estariam lá buscando os responsáveis pelas explosões.
Chegando na tal sala os homens arrastaram uma geladeira posicionada ao fundo, seguraram e puxaram para o lado uma parede móvel, ela escondia a entrada de um túnel usado no transporte de material ilícito e também pessoas. A alegria momentânea transformou-se em pesadelo quando o salvadorenho disse transtornado:
— Não é possível, não existia esta grade aqui.
Barras de aço com uma fechadura trancavam a entrada do túnel. O clima de tensão piorou ao ouvirmos passos de alguém descendo correndo as escadas. Fiquei tão assustada quanto o recém chegado quando nos viu e de imediato apontou sua arma e atirou em nossa direção. Os homens em nossa companhia atiraram de volta... O intruso caiu, o salvadorenho também, um tiro acertou em cheio o seu peito e ele desabou. Um silêncio mortal durou por alguns segundos, até que o hondurenho abaixou para verificar as funções vitais do nosso aliado. Ele balançou a cabeça negativamente dizendo que o colega estava morto. A amiga teve uma crise de choro, eu a abracei, ao mesmo tempo dei atenção ao homem nos alertando sobre os tiros terem alertado os outros, logo teríamos companhia e era preciso estarmos preparados.

O Héctor deitou a geladeira e defronte dela uma mesa, era como se construísse uma barricada para proteger-nos, ele temia por um tiroteio. Pediu para ficarmos em silêncio absoluto e irmos para detrás da proteção ao seu sinal. Caminhou até o pé da escada, verificou se o bandido estava morto, pegou a arma do cara e depois o arrastou para um canto o escondendo. A seguir ele quebrou as lâmpadas de uma luminária do teto próximo da escada e juntou os cacos logo abaixo ao primeiro degrau. Eu ia perguntar para que serviria aquilo, mas ele pediu silêncio. Claro, aquilo não era para cortar os pés dos caras e fazê-los sangrar até a morte, né? Pensei.
O estrategista fez sinal para irmos para detrás da barricada, apagou a luz da sala e ficou posicionado fora dela, apagou a última luz e ficamos na penumbra. Um minuto depois ouvimos passos apressados de pessoas descendo as escadas, comecei uma oração, porém o meu repertório era minúsculo e depois da ave Maria eu não sabia mais para que santo rezar. Fez-se silêncio por um tempo angustiante, só então ouvimos sussurros de homens falando algo incompreensível, mas era nítido que desciam as escadas devagar em nossa direção. Eles estariam com dificuldades por causa da escuridão e cautela para não serem surpreendidos... Ouvi um som característico de vidro sendo moído e a seguir vários disparos de arma de fogo. Quase gritei ao ouvir os tiros bem próximos, contudo deduzi terem sidos disparados pelo hondurenho. Aguardamos outros segundos torturantes de silêncio até a luz clarear o local e ouvir a voz do Héctor dizendo ter acertado e derrubado os caras. Eu e a Jasmim levantamos cheias de medo. O hondurenho disse que era a chance de sairmos dali e tentarmos uma outra rota de fuga.
De repente ouvimos um tiro similar ao estrondo de um canhão. Fiquei desesperada ao ver um fio de sangue saindo da cabeça do Héctor e ele desabando de costas no chão. O homem ficou inerte. Eu e a amiga não seguramos um grito de pavor e voltamos para detrás da proteção; não adiantaria de nada, nós sabíamos, já que não estávamos armadas e seríamos presas fáceis para aqueles animais. Eu pensei na punição imposta por nossa tentativa de fuga, pagaríamos com a vida e seria de imediato.
Dois caras conversavam e um deles gritou para sairmos com as mãos para cima, ou eles iriam entrar atirando. Eu olhei assustada e cheia de dúvidas para a amiga, pois achei que eles atirariam assim que vissem a gente. Ela estava em prantos e balançava a cabeça negativamente, não queria sair. O cara disse que contaria até 5 e se não saíssemos eles nos encheriam de chumbo... 1, 2, 3, 4...

— POLÍCIA DE MIAMI, LARGUEM AS ARMAS! — foi a ordem dada por alguém mais acima nas escadas. Na sequência ouvimos os palavrões pronunciados pelos pistoleiros e vários tiros de ambos os lados. Quando cessaram os disparos só ouvíamos o choro da Jasmim, os meus soluços e as batidas fortes e aceleradas do meu coração. Uma voz ordenou:
— Saiam agora e mostrem as mãos! — Eu conhecia aquela voz, era do Carlos. Eu gritei dizendo para não atirarem, eu sairia com a minha amiga. Levantamos receosas olhando para tudo, só tinha o corpo do Héctor caído e sem vida, meu coração ficou apertadíssimo e não segurei uma crise de choro.
Com a presença do Carlos e o Xavier, acreditei que finalmente aquele pesadelo chegaria ao fim. Os policiais perguntaram se havia mais alguém conosco, respondi negativamente e tremendo e arrasada me aproximei do Héctor. Abaixei para acariciar o seu rosto, ele suspirou levemente ao toque da minha mão e abriu os olhos.
— ELE ESTÁ VIVO! — gritei com toda a minha alegria.
Sentei no chão e o puxei para cima de mim deitando sua cabeça em minhas pernas. O acariciei e chamei de louco suicida.
— Se você fizer isso de novo eu te mato — falei sem saber o que dizia, de tão feliz que estava.
O Carlos se aproximou de arma em punho, enquanto o Xavier recolhia as armas dos caras caídos e verificava se os bandidos estavam mortos. Falei sobre o ferido em meu colo, ele não era um dos bandidos, foi baleado enquanto tentava nos libertar e defendia a gente. O Carlos disse ter conhecimento, fora ele, o hondurenho, quem fornecera as informações sobre as atividades do local e também da situação punk em que eu me encontrava.
Com dificuldade o homem tentou se levantar, ele parecia grogue. Eu o ajudei, passando o braço em sua cintura e ele se apoiou em meu ombro. O policial verificou o ferimento, não era grave, a bala passou de raspão e ele teve muita sorte de não ter sido uns milímetros mais para dentro ou teria sido fatal. Ele só sentiria dor de cabeça por alguns dias, explicou.

Enquanto os policiais davam uma verificada rápida no local, eu dei um beijo no hondurenho e agradeci por não ter desistido de mim. O homem da SWAT disse que não era hora para isso, precisávamos estarmos atentos e sairmos com cuidado, pois poderia haver mais bandidos escondidos no prédio.
O Héctor perguntou para os policiais o que aconteceria a seguir. A resposta do Xavier foi assustadora, todos prestariam depoimento no distrito.
— Vocês sabem que eu irei direto para o presídio se for ao distrito — ele disse aos homens da lei.
Eu olhei para o Carlos implorando para não levá-lo, pois se ele não se arriscasse para nos salvar, estaríamos mortas. Também pedi a piedade do Xavier junto com a Jasmim, ela foi contundente e solidária comigo, pediu pelo amor de Deus para deixar-nos ir. A amiga ainda tinha o fato de estar ilegalmente no país, seu visto vencera há muitos meses.
Depois de pensar um pouco e olhar para o companheiro, o Carlos falou olhando para o homem que apertava carinhosa e nervosamente as minhas mãos.
— Se você passar pela porta conosco, eu não poderei fazer nada por você e nem pelas moças, elas dificilmente escaparão da acusação de prostituição, visto que já praticavam por livre arbítrio anteriormente ao início deste episódio.
A conversa foi interrompida pelo aparelho comunicador do policial. Ele respondeu ao seu superior que estava tudo dominado naquele setor. Ao término da comunicação o hondurenho falou:
— Eu sei como desaparecer daqui levando elas comigo sem sermos vistos.

O policial olhou para o seu parceiro como quem pede uma cumplicidade. O Xavier falou com os olhos e uma expressão de rosto característica em algumas pessoas. Deu a entender o seguinte: "você decide companheiro".
O Carlos deixou o coração falar mais alto, o seu colega de serviço e amigo na vida pessoal também.
— Vocês têm dois minutos para sumirem antes da equipe descer aqui — falou o Carlos.
Meu coração ficou radiante de alegria, seria eternamente grata. Aquele moreno estaria sempre em meu coração, e não só por este caso em especial, também pelos outros momentos mágicos vividos por nós. Agradeci aos policiais, em especial ao Carlos, só não sabia ainda como sairíamos dali. O hondurenho falou para o Xavier que precisava do revólver Magnum de um dos bandidos, o mesmo cuja bala o atingiu de raspão. Abriria a fechadura com os disparos da arma. O Xavier hesitou e o Carlos falou: "um minuto e meio". O policial deu a arma para o Héctor, ele deu dois tiros na fechadura. Fiquei surdinha com os estrondos e feliz ao ver a danada da fechadura ficar em pedaços e a porta abrindo. Graças a Deus. No mesmo instante os comunicadores dos policiais "chamaram" novamente.
— VÃO, VÃO, VÃO! Gritaram os dois ao mesmo tempo, antes de atenderem ao chamado.

Eu e a Jasmim jogamos beijos de despedida e saímos correndo atrás do hondurenho. Atravessamos o túnel até sairmos nos fundos de uma residência vizinha ao prédio. Fugimos de um cachorro vigia do local e pulamos uma cerca de tela.

Depois de nos afastarmos duas quadras do cabaré Paradise, o Héctor quebrou o vidro dum carro estacionado na rua e fez uma ligação direta. Eu teria ficado muito puta em outra situação, mas naquele instante era necessário e caso de sobrevivência, eu só pensava em sair dali. Seguimos a milhão até a residência da Jasmim, ela pegaria seu passaporte e outras coisas. A ajudei a encher duas malas e saímos fora, os bandidos deveriam estar atrapalhados com a polícia, mas logo seríamos perseguidos.
Ainda quando estávamos a caminho da casa da amiga, o hondurenho ligou para um dos seus parceiros pedindo para dirigir-se até o local. O cara havia chegado e trouxe as minhas coisas deixadas na casa do Héctor: mochila com meu passaporte e dinheiro e a mala. O homem já havia antecipado a nossa fuga da cidade. Trocamos de carro com o cara e continuamos em frente.

Rodamos por mais de quatro horas até chegarmos ao aeroporto de Tampa (Flórida). A Jasmim pegaria um voo para a casa do seu irmão em Massachusetts. O Héctor disse para ela não embarcar de Miami ou Fort Lauderdale, os chefões mandariam seus capangas procurar-nos nesses aeroportos, rodoviárias e estações de trem nos arredores, devido ao grande prejuízo causado por nós em seus negócios. Uma grande quantia em dinheiro ilegal estava escondido naquele porão; o nosso colega morto havia dito para o hondurenho que além de coordenarem um esquema de prostituição, a boate servia para lavagem de dinheiro do narcotráfico. A Jasmim concordou, nos últimos dias nós ficamos sabendo onde havíamos nos metido, não era só prostituição, aquela gente era organizada e perigosa, estavam ligados a tudo de ilegal na Flórida. Ela estava ansiosa para voltar ao seu país (Colômbia), isso aconteceria em dois ou três dias, desabafou.
Depois de abraços, lágrimas e agradecimentos, a amiga foi comprar a sua passagem enquanto eu e o hondurenho seguimos viagem. Ele não havia falado para a garota a respeito do nosso destino (estávamos indo para a Califórnia), nem eu sabia até então. Prosseguimos rumo à Los Angeles e de lá eu planejaria o meu retorno ao Brasil.

Durante aqueles três dias de viagem, sendo duas noites em motéis, ele pediu muito para eu não partir, poderíamos morar na Califórnia ou algum outro estado e os "donos da noite" nunca nos achariam. Falei que o meu visto venceria logo, não queria ficar ilegal no país e não poder voltar depois. Também precisava resolver umas coisas em minha cidade, tinha um apartamento e uns investimentos bancários e só resolveria estando lá.
— Vem comigo para o Brasil — eu pedi quase como uma súplica.
Ele disse que não poderia, com certeza seria preso ao tentar sair do país, o homem tinha alguns problemas com a justiça. Além do mais, seria impossível tirar legalmente o seu pequeno patrimônio acumulado ao longo de sete anos nos EUA.
Ficamos em um impasse, os dias passaram e nós curtimos cada minuto juntos. Acompanhamos diariamente as notícias sobre a invasão da boate. Além dos que vimos morrer, vários outros foram mortos no confronto. O mexicano e sua mulher foram presos horas depois. Fiquei radiante de alegria ao saber das garotas prisioneiras, todas foram libertadas. Várias delas concordaram em ajudar na identificação dos criminosos e teriam a proteção da justiça para poderem testemunhar contra os mafiosos.

Chegou o dia e hora do meu embarque. Demos um último abraço forte e silencioso durante muitos minutos. Aos prantos ainda consegui prometer que voltaria para ele em breve. Ele, no entanto, não conseguiu dizer mais nada, pela primeira vez o vi ficar emotivo e senti uma pontinha de insegurança naquele machão guerreiro.


***

Dias depois no Brasil, em uma noite de uma quarta-feira sem graça, como de costume preparava o meu jantar enquanto ouvia a rádio WKTA (Miami) em um aplicativo de nome "Tunein". Uma notícia sobre o bairro em que morei nos EUA chamou a minha atenção:

"A invasão violenta de um condomínio em Little Havana, Miami, deixou um morto e várias pessoas feridas. A polícia bloqueou as ruas do bairro na tentativa inútil de interceptar os criminosos. O homicídio ocorreu em um condomínio na SW 3nd St com a NW 15th Ave. Homens mascarados invadiram o prédio, espancaram e roubaram os moradores. Um deles foi ferido mortalmente com vários tiros. Um morador do apartamento ao lado da vítima, Samuel Hernandes, disse que três homens armados e mascarados renderam o cubano quando ele abriu a porta, provavelmente por ter ouvido um barulho incomum — ele era o proprietário e síndico do edifício, comentou outra moradora de nome Amanda. Os bandidos deixaram o condomínio levando dinheiro, joias, celulares e a vida do seu amigo Ramon, morto com vários tiros.

Os bandidos escaparam ao cerco policial, ninguém foi capturado. Segundo os policiais, eram membros de uma gangue conhecida pelo codinome "La Mara", ou seja, a Mara Salvatrucha, uma das gangues que controlam o submundo da Flórida entre outros estados.
"

Não ouvi mais nada, lembrei da promessa do Héctor de ir atrás do cubano Ramon. Fiquei digerindo a notícia e maldosamente pensei...Eu sabia que iria sapatear em sua tumba seu coroa FDP. Aquele tiozinho não merecia o ar que respirava. Terei uma preocupação a menos quando retornar a Miami para matar a saudade que sinto do meu hondurenho.




Beijos queridos amigos. Até a próxima história.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Capítulo 24 - Um Inferno Chamado Paradise

O final da rota do nosso sequestro foi no Cabaré Paradise. Aquela casa de entretenimento adulto não era referência positiva na mídia especializada, suas instalações eram simples e estava localizado na 18 street no bairro de New Tikal. Apesar de ser um bairro marginal, controlado por uma gangue violenta e afastado da muvuca do grande centro, ainda assim era largamente conhecido e recomendado tanto por locais como por turistas que estavam à procura de diversão sexual e/ou drogas ilícitas. A boate tinha como atração principal um grupo de garçonetes bonitas e cheias de atrativos que exalavam pecado. O clima de sedução e sexualidade explícita no interior daquele comércio ficava evidente ao nos depararmos com atendentes em seus uniformes compostos por espartilhos e demais roupas íntimas. O conjunto da obra deixava os marmanjos babando. As mesmas atendentes das mesas se revezavam nas cabines reservadas fazendo strip-tease particular e também sexo — dependia do cliente e até quanto ele estava disposto a pagar.
A grande maioria daquelas garotas, apesar de demonstrarem graça e uma sensualidade natural, eram prisioneiras e obrigadas a se prostituirem para permanecerem vivas e com a esperança de um dia saírem daquele lugar. As restantes eram membros da gangue desde a puberdade e recebiam pelo trabalho de prostitutas, além disso, também auxiliavam no controle das prisioneiras.
Mesmo com o entra e sai de homens durante as 24 horas do dia em que funcionava aquele puteiro, a vigilância sobre as meninas era eficiente, além de rigorosa, tentativas frustradas de fuga e contato com clientes para pedidos de ajuda sempre acabavam mal para a infratora.

Não bastasse os inúmeros seguranças que estavam sempre ligados em tudo, ainda havia câmeras que monitoravam a todos no interior do edifício, inclusive as relações sexuais entre as profissionais do sexo e a clientela. Exageradamente o chefe se gabava do moderno sistema de captura de imagens e sons que registrava até o mais leve gemidinho das vadias (segundo ele) e nada escapava ao espião eletrônico. Todas nós fomos alertadas sobre a existência e eficácia do aparato e que pagaria caro quem dissesse ou fizesse algo que comprometesse o esquema dos bandidos, inclusive quem alertasse os clientes de que eles estavam em uma espécie de Big Brother.
Era como estar em uma prisão de segurança máxima, as regras eram rígidas e ainda tinha o adicional de punições cruéis. Um sujeito com uma cara demoníaca e que mandava em todos, fez questão de explicar pausadamente o regulamento, isso foi em meu primeiro dia naquele cárcere. Ouvi o alerta em uma de suas reuniões; direcionou o seu olhar ameaçador alternando para cada uma de nós. O seu método de intimidação funcionava, visto que eu fiquei apavorada. Aquele tipo me causava arrepios, ele era do mal. Tinha algo de similar entre ele e o Seu Ramon (meu ex senhorio); olhar frio e duro e o odor que exalava do seu corpo remetia a algo obscuro. As punições que ele impunha para quem se recusasse a trabalhar, ou por mau atendimento a clientes, eram cruéis. Espancamentos e humilhações eram os seus preferidos, além das torturas psicológicas com ameaças em clima de terror. Drogas também eram constantemente aplicadas no controle das mais revoltadas e agitadas.

Havia várias garotas que chegaram ao local por indicação, vieram em busca de trabalho e caíram no golpe do dinheiro fácil. Não perceberam de imediato tratar-se de uma armadilha. Tudo lhes era cobrado: cama, higiene, alimentação, segurança e outras taxas inventadas pela gerência. Começaram devendo desde o primeiro dia de trabalho e, ao final da semana, ao invés de receberem um pagamento, o que tinham era uma dívida enorme com a casa. Multas eram-lhes aplicadas pelos motivos mais banais e não recebiam pelo trabalho que acabaram de fazer, ou seja, a dívida das garotas virava uma bola de neve que só aumentava e seriam eternas reféns daquela organização. Quando caía a ficha e descobriam que a oferta de trabalho era um golpe, só restavam-lhes o arrependimento por terem procurado emprego naquele lugar, dado que desde o primeiro instante no interior daquele inferno, desistir e ir embora não mais seria uma opção, caíram em uma arapuca e seriam escravas. Não era o meu caso, vim contra a minha vontade, fui raptada e entregue como prisioneira. Nem um falso cachê eu tinha… Também não tinha um plano de fuga…Ainda.

Logo na primeira noite, eu e a Jasmim fomos espancadas por aqueles covardes, nós nos recusamos a trabalhar de graça como prostitutas. Tivemos que obedecer para não sermos destroçadas pelos animais. Eu tinha a certeza de que o Héctor viria me resgatar nas próximas horas.


***

Um, dois, três e mais dias se passaram, eu e minha amiga levamos muitas porradas sem motivos, principalmente para acordarmos depois de mínimas horas de sono. Eu sonhava com o Héctor chegando vestido com um casaco preto — tipo o Neo em Matrix — e armado até os dentes. Ele metralhava a todos e me levava em uma moto dourada com rodas em chamas.

Durante cinco dias, eu e a colombiana fomos forçadas a atender sexualmente tudo quanto era espécie de homens. Ficamos confinadas num cubículo dividido em três partes por divisórias de madeira; em cada pequeno espaço só cabia uma cama de solteiro. Fui obrigada a transar com dezesseis homens em um único dia, e não tive menos de doze transas em nenhum outro. Aquilo era tipo uma linha de produção de fábrica, os caras pagavam um preço baixo para transarem no cubículo e tinham 45 minutos de programa. Durante o intervalo entre as transas mal dava tempo de ir a um banheirinho imundo e sem janela que ficava no corredor ao lado, minha tentativa de higiene não tinha muito sucesso devido às condições precárias daquele chiqueiro.
Nós ouvíamos muitas gracinhas dos seguranças durante nosso percurso do cubículo ao banheiro, devido as ordens que nos foram dadas de permanecermos nuas o tempo todo. E nem se quiséssemos teríamos o que vestir, os caras se apoderaram de nossas roupas e tudo mais que tínhamos.

Ao raiar do dia éramos trancafiadas em outro quartinho deprimente. As camas eram colchões fedorentos jogados ao chão. Mesmo os odores enjoativos daquele lugar podre não impediam que eu dormisse como uma pedra, era só deitar, fazer uma oração, pois ainda acreditava que o hondurenho viria me salvar e em seguida apagava de tão exausta e fraca que estava. Os sádicos não nos deixavam ter mais que cinco horas de sono. Nos davam restos para comer e éramos levadas novamente para o cubículo e, sobre aquela cama nojenta, passaríamos as próximas 18 horas deitadas de pernas abertas ou ficando de quatro; essa era a posição preferida da maioria dos tarados que frequentavam o inferninho — acho que é a preferida de todos os tarados do mundo todo.

Um dos seguranças que vigiava o cantinho em que ficávamos, se apaixonou pela Jasmim. Nos raros minutos entre um cliente e outro ele trazia algo para comermos e bebermos. A amiga estava completamente frágil emocionalmente, se agarrou ao cara na esperança de conseguir sair dali. Eu incentivei a relação entre os dois, ele estava sendo útil. Também acreditei que o cara poderia contribuir em nossa fuga. Fiquei de vigia algumas vezes para eles darem uns amassos rapidinho e ganhamos a sua confiança. Ele revelou uma particularidade sobre o sistema de câmeras de vigilância: não era exatamente como o chefe tentava fazer a todos acreditarem, na verdade era uma câmera aqui e outra acolá. A verdadeira segurança era feita por homens e mulheres pertencentes à gangue. A câmera do nosso cubículo, por exemplo, nem ligada estava e servia apenas para intimidar, tipo segurança psicológica, disse ele.
Também nos contou que o mexicano e sua mulher (os donos da boate) pertenciam a uma seita satânica, onde um dos líderes era um homem de codinome “Cubano”.
As garotas capturadas eram forçadas a trabalharem por algum tempo como escravas sexuais, quando se transformavam em um problema, seja por revolta ou doença, eram entregues à seita para serem sacrificadas em um ritual macabro.
Jesus, precisava arrumar uma maneira de fugir dali o quanto antes, o nome “Cubano” acendeu um alerta vermelho em meu sistema de sobrevivência. Mesmo com receio de romper as relações com o nosso aliado, pedi para ele dar um jeito de encontrar o Héctor e contar onde estávamos. Houve um silêncio breve, fiquei com medo da reação do salvadorenho, eles pertenciam a gangues rivais e eram inimigos mortais que disputavam o controle de territórios e estavam constantemente em guerra.
Eu sabia que o hondurenho estava à minha procura e se fosse informado sobre a minha localização, daria um jeito de invadir o território inimigo para me libertar. Aquele homem além de ser um excelente lutador, também era um guerreiro astuto.
O segurança disse que nos ajudaria do seu jeito, atender a meu pedido seria praticamente impossível. Além do mais, qualquer membro da "Mara" que entrasse no território seria morto, concluiu. Eu insisti e pedi para ele pensar no assunto com carinho. Eu já havia falado sobre o hondurenho para a Jasmim, deixei claro que a única chance de sairmos do edifício e do bairro controlado pela gangue, seria com a ajuda dele. A amiga partiu para o ataque, usou todo o seu poder de sedução e como uma fêmea felina fez amor com aquele homem como se fosse a última vez em suas vidas.
Porém o inesperado aconteceu, fomos surpreendidos por outros seguranças. Ferrou grandão, estávamos completamente fodidas e com nossa chance de fuga de volta à estaca zero. Quatro caras chegaram de surpresa. Eu fui a primeira a entrar na porrada por estar vigiando e sendo conivente. Um outro bateu muito na minha amiga enquanto os outros dois seguraram o salvadorenho adiantando-lhe as penas que poderia sofrer. O covarde que bateu na Jasmim, também deu umas porradas em nosso colega enquanto os outros o seguravam. Os três saíram levando o salvadorenho. Um cara ficou para nos vigiar e rosnando falou que nós tínhamos dois minutos para irmos ao banheiro, limparmos o sangue em nossas bocas e narizes e voltarmos ao trabalho, pois já havia clientes esperando.

Comecei a perder as esperanças de acordar daquele pesadelo.

Continua…


Beijos queridos amigos. Até o próximo capítulo!

sábado, 10 de dezembro de 2016

Capítulo 23 - Policiais Bandidos

Dormi o dia inteiro naquela quinta-feira, estava precisando recuperar o sono perdido. O Héctor havia feito compras e juntos fizemos o jantar. Eu ainda tinha objeção ao seu jeito marginal de ser, mas permanecer ao seu lado, protegida e amada por dois dias inteiros foi maravilhoso. O chato era ficar naquele confinamento em plena noite de sábado, meu desejo de sair era enorme, nem que fosse só para tomar um sorvete na esquina. Meu anfitrião não foi trabalhar nas duas últimas noites, apenas deu uma passada rápida na academia durante a tarde, praticamente não desgrudou de mim desde o meu desembarque. Não desgrudou mesmo, parecíamos recém casados ainda em lua de mel; passamos a maior parte do tempo fazendo amor por todos os cantos daquela casa.

Naquela noite eu ficaria sozinha, o hondurenho teria que atender a um chamado do seu chefe (o do famoso escritório de cobranças). O homem fez inúmeras recomendações para que eu não saísse, disse que nas próximas horas ele saberia quem estava atrás de mim.
O acompanhei até à porta e depois de beijos de despedida e mais recomendações ele foi em direção ao seu carro. Tive uma sensação estranha e um aperto em meu coração, era como se o estivesse vendo pela última vez. Chamei seu nome e corri em sua direção, o abracei forte e nosso beijo teve um sabor amargo de despedida. Ele não percebeu a minha apreensão, ficou feliz com a minha demonstração de carinho e disse que voltaria o mais rápido possível.

Minutos mais tarde, após beber a metade de uma garrafa de vinho, atendi a um chamado em meu celular, era a Jasmim, a minha amiga colombiana, ela disse que precisava da minha ajuda para atender dois clientes especiais agendados pelo Pepe, um deles exigiu que eu fosse uma das garotas e o chefe a incumbiu da tarefa de me levar. Falei que estava esgotada chegara à pouco de um trabalho; foram cinco dias duríssimos e cansativos, precisaria repousar um pouco mais até estar pronta para outra. A amiga disse que somente eu poderia ajudá-la, o clima no restaurante estava horrível, estavam dispensando parte das meninas. Ela dependia do emprego e poderia perdê-lo caso não atendesse o Pepe. Pediu pelo amor de Deus e choramingou até conseguir me convencer.
"Droga! Porque eu sou tão molenga?" Pensei.
— Tá bom! Eu te ajudo, mas só desta vez.
A Jasmim agradeceu muito e disse que poderia ir me pegar. Recusei a carona, não queria revelar onde estava hospedada, também não contei o lance da ameaça. Peguei o endereço do encontro: um motel na Biscayne Blvd, distante umas cinco milhas de onde eu estava. Falei que a encontraria no local em 40 minutos. Com sorte eu retornaria antes do hondurenho voltar.

Chamei um Uber. Quando ele chegou e me avisou via celular, saí e vi um cara que estava em um carro estacionado defronte ao condomínio vir em minha direção. Eu já sabia que era um dos parceiros do hondurenho que fazia a minha segurança. Ele pediu para acompanhar-me caso eu saísse. Falei que não era preciso, iria visitar uma amiga e voltaria logo. Pedi encarecidamente para que ele não falasse nada para o Héctor, não queria chateá-lo e preocupá-lo. Entrei no táxi e seguimos em frente, percebi que o "segurança" veio atrás em seu carro e manteve uma distância considerável.

Enviei uma mensagem de voz para a amiga avisando que estava chegando. Ela disse para eu ir direto ao quarto. A lembrei que swing seria mais caro.
Um swing seria legal, foi sua resposta, porém ela estaria com o outro cara em uma outra suíte ao lado.

Já no quarto do motel e após uns goles de whisky, acerto de valores e detalhes do programa, iniciamos os momentos de pegação.
Minutos mais tarde, estava somente de calcinha e com a boca cheia do sêmen que acabara de receber do seu membro. O cara esperou até gozar para se apresentar como policial. Falou que eu estava presa por praticar prostituição nos Estados Unidos. Fez eu me arrumar em dois minutos e levou-me para fora onde o seu companheiro o esperava ao lado de um carro.
Quando vi que dentro do veículo estavam a Jasmim e aqueles dois homens (latino e hispânico) que me abordaram no bar do hotel em meu último encontro com o Patrick, já imaginei que era extorsão ou pior. Eles também se apresentaram como policiais. A amiga estava aos prantos e parecendo confusa, desculpou-se e disse não ter ideia do que estava acontecendo. O latino a mandou calar a boca.
Desconfiei que aqueles caras eram bandidos fingindo serem homens da lei. E mesmo que fossem policiais, o Héctor havia me dito que confiar em um policial local poderia ser uma roubada; a gente nunca sabe se ele é correto ou se colabora e protege algum cartel.
Eles pediram meu passaporte, dei minha ID (Carteira de Matrícula Consular). O que parecia ser o chefe ficou contrariado dizendo que aquilo não valia nada, ele queria meu passaporte. Expliquei que aquele documento foi tirado no consulado brasileiro e substitui o meu passaporte. Ele foi bem grosseiro dizendo que já sabia disso, mas no distrito eu teria que apresentar o documento com o Visto. Disseram que iriam comigo até o condomínio em Allapattah para pegarmos o passaporte e algumas roupas, já que eu permaneceria presa até o dia em que seria levada à corte.
"Como que eles sabiam onde eu estava hospedada se não contei nem para a Jasmim?" Fiquei mais aterrorizada ainda.
Comecei a desconfiar que eu e a amiga estávamos fodidas, o Carlos já havia me orientado a guardar o passaporte em local seguro, pois o documento tem valor no mercado negro.
Menti dizendo que havia perdido meu documento ou havia sido roubado durante o cruzeiro. Tiraria outro somente quando retornasse ao Brasil. Os caras ficaram indignados, disseram que éramos muito relaxadas (entre outros pejorativos) ou muito mentirosas — a amiga também havia dito que perdera o dela, já havíamos conversado a respeito desse lance de passaporte durante minha estadia no restaurante —. Claro que um deles, o que estava comigo no quarto, já havia revirado a minha bolsa e ficou com tudo que era de valor, inclusive meu celular e dinheiro. O FDP me agrediu com um tapa quando eu disse que ele não podia pegar as minhas coisas.
Disseram que iríamos direto para o distrito. Foram enfáticos comentando sobre a gravidade do crime. Com sorte, após sermos sentenciadas pelo juiz, pagaríamos uma multa de uns vinte mil dólares e seríamos deportadas, ou poderia piorar, seríamos condenadas a passarmos no mínimo um ano no presídio com criminosas de todas as espécies e deportadas depois.

Tudo aquilo não passava de um golpe, eles eram policiais corruptos que lucravam extorquindo pessoas e recrutando garotas indocumentadas (ou não) que praticavam a prostituição na América. Eles as encaminhavam para os "Donos da noite" e as garotas eram obrigadas a trabalhar de strippers (aos olhos da lei) e putas (aos olhos dos frequentadores daqueles estabelecimentos). Tudo acontecia normalmente durante as baladas noturnas, tanto quanto nas diurnas, em várias casas conhecidas internacionalmente. O que a vista dos turistas parecia ser um trabalho artístico e por vezes desejado por jovens à procura do sonho Americano, era,na verdade, um cárcere onde garotas viviam em regime de semiescravidão ou escravidão total.
Meu Visto ainda não havia vencido, mas estava praticando um crime naquele país. Eu corria os meus riscos no Brasil, mas lá a prostituição não é crime e eu tinha pessoas a quem recorrer nos momentos difíceis.
Pois é, como diz o ditado: "Se você ficar batendo na porta do inferno, uma hora o diabo atende."

Nós fomos algemadas e ficamos no carro com o latino e o hispânico. O cara que estava comigo no quarto, juntamente com o outro sujeito, entraram em um outro veículo e sumiram. Nó fomos levadas pela dupla de policiais bandidos. Quando seguíamos um pouco mais à frente, eu consegui ver o parceiro do Héctor dentro do seu carro, ele falava ao celular e fixou o seu olhar no meu até estarmos fora do seu campo de visão.
Os caras seguiram até o bairro Little Haiti, lá nós fomos colocadas dentro de uma minivam. Além do motorista havia mais quatro caras tipo bandidos e todos com tatuagens que faziam referência a uma gangue (Barrio 18). Fiquei aterrorizada e temi que tinha pouco tempo de vida, aquilo não se tratava de um rapto para trabalho de escrava sexual, era uma vingança contratada por alguém.

Nos últimos dois dias eu ficara sabendo um pouco mais sobre a Flórida, o Héctor resolveu abrir o jogo, já que eu estava diretamente envolvida naquela trama.
A grande Miami é uma rota de drogas e há uma luta pelo controle do local. A disputa é sangrenta entre os cartéis que têm como soldados membros das duas gangues mais violentas do mundo. É muito dinheiro envolvido com drogas, prostituição e extorsão. O hondurenho pertencia a uma dessas gangues e conhecia inúmeros policiais corruptos, inclusive do alto escalão, os caras estavam do "lado negro da força". Muitos deles foram despedidos ao não passarem pelo detector de mentiras e se tornaram mais um membro (soldado) das gangues.



Eu e a Jasmim fomos entregues em uma boate da periferia, um puteiro 24h. Já tínhamos ouvido falar sobre aquele lugar e sabíamos que o mundo acabara de desabar sobre nossas cabeças, seríamos escravas sexuais e não sairíamos de lá com vida.


Continua...




Beijos queridos amigos. Até o próximo capítulo!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Capítulo 22 - Essa Cadelinha Morde

Madrugada de quinta-feira, horas finais do cruzeiro. Passei por um momento tenso quando estava na cabine de um cara que revelou suas tendências sádicas. Ter um fetiche e fazer um joguinho sexual não tem nada demais e desde que seja sem exageros até que é divertido. Nosso rala e rola começou legal e, mesmo ele me tratando como uma cadelinha, estava dentro do suportável. Eu até que curto o lance de bancar a submissa quando isso me proporciona prazeres diferentes, o problema é que o cara começou a cheirar um pó e a sua doideira o deixou bruto demais. Foi a gota d'água, posto que eu já estava com o saco cheio da maioria dos caras daquele navio: prepotência e arrogância eram suas marcas registradas; estes tipos têm mais respeito por seus cachorros do que por nós garotas de programa — Pessoas que têm muito dinheiro acham que podem tudo.
O estúpido me deu um tapa no rosto porque eu me recusei a ser acorrentada à cama presa por uma coleira. Claro que eu revidei com outro bofete na sua cara e afastei-me dele já esperando pelo pior. Falei que não estava ali para ser espancada, aquilo era um negócio e não escravidão. O homem me chamou de vadia para baixo e veio espumando pra cima de mim. Esse sem noção era só mais um que se deixou enganar pela minha aparência frágil de patricinha. Quando ele chegou na distância ideal eu dei um chute caprichado no seu saco, o mesmo chute que pratiquei exaustivamente em minhas aulas de Muay Thai na academia do Héctor. Enquanto o homem se contorcia agachado, proferindo palavrões e ameaças, peguei as minhas coisas, sai rapidão de sua cabine e corri feito doida corredor afora... Ainda nua.


Mais adiante olhei para trás verificando se ele vinha atrás de mim, não vi nem sinal do viciado. Aproveitei para vestir o meu vestido em míseros segundos e continuei correndo até a minha cabine. Lá eu fiquei quietinha pensando se o denunciava por agressão e drogas ou se ficava de boa, pois a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, né?
Resolvi ficar na minha, em menos de duas horas desembarcaríamos em Fort Lauderdale e estaria livre de tudo isso.
Passava das cinco da manhã, pense em uma pessoa com medo e cambaleando de sono. Houve uma festa nesta última noite e os passageiros aproveitaram a nossa companhia até o último segundo, findei a noite com este escroto idiota. Não poderia nem tirar um cochilo rápido, precisava arrumar minhas coisas e participar de uma reunião com a Emma e as meninas antes que o navio ancorasse.

Pouco depois eu fiquei apavorada ao ouvir o som da porta da cabine abrindo, procurei por algo pesado que pudesse usar para me defender... Era a minha colega de quarto.
— Está sozinha? — perguntei receosa.
Estou, por quê?
Contei o ocorrido e ela me chamou de doida. Eu também achei doideira a minha reação, muitas vezes ajo de impulso e não meço as consequências. Ela sugeriu que eu contasse para a Emma, o cara deveria ser proibido de embarcar novamente. Lembrei a colega que neste negócio os clientes sempre têm razão (segundo os chefes) e nós somos substituíveis. Ela concordou.

Em quarenta minutos havíamos terminado de arrumar nossas coisas e estávamos prontas para o desembarque. Estranhei não ter recebido a presença de alguém reclamando do ocorrido; não sabia se isso era bom ou ruim, estava agoniada pensando em tudo que poderia me acontecer.

Durante a tal reunião comuniquei que não embarcaria no próximo sábado e que poderiam colocar outra pessoa em meu lugar. De qualquer maneira eu seria dispensada, isso aconteceria assim que o drogado do saco chutado fizesse a reclamação e pedisse a minha cabeça.
Outras garotas também pediram o desligamento. O trabalho a bordo foi mais penoso do que havíamos imaginado, ficar cinco dias à disposição daqueles pervertidos, sendo quatro deles para cada uma de nós, foi puxado, eles nos mantiveram ocupadas em tempo integral. Não consegui dormir mais que três horas seguidas ou mais que cinco alternadas em um mesmo dia. O excesso de arrogância, estupidez e brutalidade de boa parte daqueles homens foram os fatores primordiais para a minha desistência. Um número considerável daqueles endinheirados pareciam estarem possuídos por espíritos de capitães de navios pirata e agiam como tal. O trabalho deixou de ser divertido para ser apenas um lance profissional, perdi o tesão e o interesse.

Claro que curti muito o passeio, foi mágico conhecer aqueles paraísos tropicais e ainda teria a chance de retornar várias vezes nas semanas seguintes caso permanecesse no grupo. No entanto aquele negócio tinha mais pontos negativos do que positivos: pouco tempo para descanso era um deles, fiquei esgotada e cheia de sono e dormir tão pouco estava acabando com a minha saúde e beleza. O dinheiro também não alcançou a minha expectativa, muitos dos ricos daquele cruzeiro gastaram fortunas com bebidas e compras, contudo, na hora de gratificar a garota de programa ou os atendentes, mostraram-se os maiores sovinas. Os pagamentos extras que recebi para submeter-me a algumas "extravagâncias", somado a generosidade de um ou outro passageiro, fizeram uma diferença no montante final, porém eu esperava muito mais desses senhores.


Depois das despedidas achei melhor permanecer acompanhada, fiquei ao lado da minha colega de cabine e do meu amiguinho roqueiro, a carona que ele oferecera para nós até Downtown (centro de Miami) foi providencial. Seguimos juntos em direção ao estacionamento e gelei de susto quando um vulto surgiu à minha frente vindo do nada... Aff! Era o Héctor em mais uma de suas entradas espetaculares. Disse que precisava falar comigo em particular. Respondi que estava esgotada e conversaria com ele outra hora. O hondurenho mudou a expressão facial, ele não suportava ser contrariado.
— Vem comigo, preciosa, é importante. Só estou querendo ajudar.
O homem sabia como me desarmar, apesar de suas atitudes serem costumeiramente autoritárias e grosseiras ele também sabia fazer uma cara de cachorro pidão e acabava me convencendo. Eu também estaria protegida ao lado dele caso o escroto do navio aparecesse.
Desculpei-me com meus colegas de passeio e trabalho, dei um até breve e fui com o Héctor.

O hondurenho parecia apreensivo, olhava para tudo e para todos com desconfiança e só falou qual era o assunto importante quando estávamos dentro do seu carro e ganhando velocidade rodando fora do estacionamento. Disse que chegou-lhe uma informação: eu havia deixado pessoas irritadas com as minhas últimas atitudes e tinha gente barra pesada querendo me dar uma lição. Eu teria sido levada à força quando chegasse do cruzeiro caso ele não estivesse me esperando. Falou que ainda não sabia quem pediu a minha cabeça, mas era melhor eu ficar na casa dele enquanto ele averiguava.
— Ah! Entendi tudo. Toda esta cena é só para eu ficar na sua casa?
Percebi que não era bem assim. Fiquei assustada e passei a acreditar quando ele respondeu com uma calma e um tom de preocupação que nunca havia visto nele antes. Disse que era muito sério, ele foi alertado por um dos seus irmãos de fé. Concluiu dizendo que eu realmente estava em perigo e deveria ficar fora de circulação enquanto ele descobria o que estava acontecendo.
Pensei: estou mesmo precisando descansar uns dias e ainda economizaria a grana do hotel. Aceitei a oferta de estadia em sua casa e, claro, assim que chegamos, não resisti ao homem e nos acabamos nas "atividades de alto impacto".

Mesmo estando toda molinha e finalizada depois de uma pegada gostosa, pedi para ele ir fazer umas comprinhas, não tinha nada naquela casa. Fiquei sozinha e dormi um sono profundo, estava desmaiando de sono.



Continua…


Beijos queridos amigos. Até o próximo capítulo!
 

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